Mulheres cobram mais acesso a políticas públicas do Governo do Distrito Federal

Mais conscientização em espaços públicos acerca da violência contra a mulher, fomento à independência financeira àquelas que estão em situação de vulnerabilidade, ampliação de vagões exclusivos e profissionais capacitados para atender e orientar vítimas de abuso. Esses são alguns dos desejos daquelas que ainda são vítimas da misoginia diariamente. Ao Correio, o Governo do Distrito Federal (GDF) destacou que trabalha o tema de forma interseccional. Especialistas na área, no entanto, sinalizaram que ainda faltam políticas públicas na capital do país.

Segundo o GDF, no âmbito da violência de gênero, as políticas estatais em vigor funcionam, principalmente, por meio da Secretaria de Justiça e Cidadania do Distrito Federal (Sejus-DF), da Secretaria de Estado da Mulher e da Defensoria Pública do DF (DPDF).

Às vítimas de violência ou em vulnerabilidade social, a Sejus oferece suporte por meio do Programa Direito Delas, conduzido pela Subsecretaria de Apoio às Vítimas de Violência (SUBAV). A medida é responsável por disponibilizar atendimento social, psicológico e jurídico para as vítimas diretas e seus familiares. O programa, que conta atualmente com 11 núcleos de atendimentos, oferece capacitação profissional e fomento ao empreendedorismo.

A rede de acolhimento da SMDF tem nove Espaços Acolher — unidades especializadas no acompanhamento multidisciplinar de homens e mulheres envolvidos em casos de violência doméstica e familiar contra mulheres; uma Casa Abrigo — que acolhe mulheres em situação de violência sob grave risco de vida e seus filhos menores de 12 anos; e uma Casa da Mulher Brasileira — que concentra serviços especializados e multidisciplinares para o atendimento às mulheres em situação de violência (outras quatro unidades estão em construção). Há, também, três Centros Especializados de Atendimento às Mulheres (CEAMs) e seis Comitês de Proteção à Mulher.

Ao avaliar as iniciativas, Lisandra Arantes, advogada especialista na atuação com a perspectiva de gênero e defesa de mulheres, declarou que não é possível afirmar que as políticas estatais são suficientes, uma vez que o número elevado de ocorrências aponta para outro lado. A especialista analisou que, além de equipamentos públicos, é preciso que as estruturas abranjam, sobretudo, os territórios periféricos mais distantes.

A operadora de cobrança Dynoélia Cristina Damasceno, 26 anos, sentiu na pele a dor da violência contra a mulher — viu sua tia, de 23 anos, ser vítima de feminicídio em Santa Maria, onde mora. Desde então, vive assombrada pelas marcas de ver alguém que amava ser morta simplesmente por ser mulher. À época, a tia foi estuprada e teve a garganta cortada por um vizinho que residia no mesmo lote em que ela morava.

Dynoélia Cristina perdeu a tia para o feminicídio

Perguntada sobre as políticas públicas implementadas ao longo de 13 anos depois do crime, Dynóelia afirmou considerar o cenário no Distrito Federal pior do que era. “A segurança, infelizmente, é precária. O homem que fez isso com a minha tia foi preso somente seis anos depois do crime. Eu fui a única a ver o corpo dela e nunca tive acompanhamento psicológico. Infelizmente, ela é um exemplo de que a gente não está segura nem em casa

Isabel Freitas, assessora do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), apontou que a violência contra a mulher é um fenômeno social antigo. “Está alicerçado numa ideia de inferioridade e desigualdade. É preciso combater, em totalidade, toda a estrutura que promove e calcifica a ideia de que a mulher é inferior e de que mulheres negras, indígenas, trabalhadoras rurais e moradoras de periferia são mais inferiores.”

Simone Oliveira, 35, auxiliar de pedagogia, mora no Entorno do DF, mas trabalha no centro da capital. Todos os dias, passa cerca de quatro horas no transporte público, faz trajetos a pé e circula, sozinha, por lugares de alta aglomeração. “Somos observadas o tempo todo pelos homens e, no transporte público, por exemplo, os motoristas e cobradores não têm treinamento para nos ajudar, apenas ignoram e debocham, a partir daí, nos sentimos desencorajadas a pedir ajuda”, reclamou.

Simone Oliveira diz que o apoio deve chegar antes da violência

Quando ouviu da reportagem as iniciativas existentes no DF de apoio às vítimas de violência, declarou que só conhecia a Lei Maria da Penha. “Não adianta criar medidas e não tirar do papel, não divulgar. Não adianta esperar feminicídios ocorrerem para oferecer apoio às famílias”, destacou.

Damiana Neto, fundadora da ONG Ação de Mulheres pela Equidade – AME, avaliou que, em termos de estruturas voltadas às vítimas de violência, há locais formais constituídos para prestar apoio, mas ressaltou que há muito para discutir. “Para quem é essa rede de proteção e onde está localizada? Os profissionais que atendem estão capacitados ou replicam violências? É fácil acessar os serviços? Pelos relatos que recebemos das protegidas em nossa organização, o serviço não acolhe, e ainda é um violador de direitos.”

A especialista acredita que faltam informações para a comunidade; comprometimento do governo; punição a quem não presta um serviço de qualidade; formação a quem atua nesse serviço; e recursos humanos e materiais nos equipamentos de políticas públicas. “Há relatos de falta de servidores e as estruturas, apesar de existirem, são precárias e fragilizam a assistência social no DF”, disse.

Todas as facetas

Mulher e mãe de duas adolescentes, a empresária Fabiana Bonfim, 44 anos, mora há 15 no Sudoeste e sente-se insegura vivendo no Distrito Federal. Ela reclamou, sobretudo, da falta de políticas públicas voltadas ao transporte seguro para mulheres. Apressada, não queria conceder entrevista porque estava indo buscar uma de suas filhas na escola. “Todos os dias são assim. Não deixo elas irem sozinhas no transporte público, porque tenho receio. Se fossem meninos, eu até me sentiria mais tranquila. Como também não tenho coragem de deixar que viajem sozinhas em carros de aplicativo”, comentou.

Fabiana Bonfim acredita que falta divulgação das políticas

Fabiana acredita, também, que faltam divulgações acerca das políticas já existentes. “Vez ou outra vejo algumas propagandas na televisão, mas acho que não alcançam todas as mulheres.” Para ela, o cenário ideal ainda é um sonho distante.

A assessora do Cfemea Isabel Freitas destacou que a atuação frente ao problema deve ser integrada, envolvendo saúde pública e fomento a independência econômica dessas mulheres. “As vítimas atendidas pelo Cfemea na Cidade Estrutural alegam que os programas de geração de renda não são suficientes para gerar autonomia às mulheres periféricas.”

“Quando a violência chega à delegacia, é o atestado de que o Estado fracassou, que a política pública fracassou, por não conseguir criar mecanismos de enfrentar a questão no cotidiano. É preciso conectar as políticas públicas e elaborar uma ampla campanha. Brasília é uma cidade altamente desigual e essa violência precisa ser enfrentada em conjunto, por todo mundo e com responsabilidade”, disse Isabel.

A fisioterapeuta Karen Dias, 42 anos, é moradora da Octogonal, mas vai todos os dias ao Setor Hospitalar Sul para trabalhar. Ela acredita que somente as políticas de enfrentamento não são suficientes e avalia que falta um trabalho focado na prevenção. “Acho que iniciativas pensando na segurança antes do crime acontecer seriam válidas e melhorariam os índices, principalmente de feminicídio, que aumentam dia após dia.”

Karen Dias afirma que é preciso trabalhar na prevenção

Para Leila Brant Assaf, gestora do Instituto de Desenvolvimento Humano Umanizzare, além de políticas públicas, é essencial investir em educação e conscientização contínua para que a busca pela equidade de gênero não se restrinja ao mês de março, quando é celebrado o Dia Internacional da Mulher. “Isso inclui a inserção de temas sobre igualdade de gênero nos currículos escolares, a promoção de capacitações em empresas, escolas e comunidades, bem como o estímulo à mídia para tratar essas pautas de forma constante.”

A gestora refletiu que não basta receber treinamento técnico, é preciso que os profissionais envolvidos se sensibilizem e enxerguem a dor das mulheres atingidas, colocando-se em posição de empatia, longe de preconceitos. “Somente assim, o profissional poderá atuar de forma humanizada e eficiente, garantindo acolhimento digno e acesso real à Justiça e proteção.”

Adalgiza Maria Aguiar, promotora de Justiça e coordenadora do Núcleo de Gênero do Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT), avaliou que há avanços, mas que há a necessidade de ampliação e aperfeiçoamento nas políticas para que as vítimas não sejam atendidas, e depois caiam em sofrimento outra vez.

“No eixo da prevenção, o MP tem atuado nas medidas de conscientização para além do mês de março, fazendo refletir sobre quais são as raízes da violência e analisar as motivações culturais que, infelizmente, existem”, apontou a promotora.

Sejus-DF

– Programa Direito Delas — atendimento social, psicológico e jurídico às vítimas diretas e familiares. Oferece capacitação profissional e fomento ao empreendedorismo, para promover autonomia e independência. Conta com 11 núcleos de atendimentos: Brasília, Ceilândia, Estrutural, Gama, Guará, Itapoã, Paranoá, Planaltina, Recanto das Emas, Samambaia e São Sebastião. Há um número que funciona 24h para acolhimento: (61) 98382-0130.

– Nasce uma Estrela — curso gratuito para gestantes e mães de recém-nascidos, com orientações sobre cuidados com o bebê, amamentação e bem-estar no pós-parto; e Protagonista da Casa — curso prático voltado para diaristas, empregadas domésticas e donas de casa que ensina técnicas de organização e limpeza, contribuindo para o aumento da renda. Os ensinamentos são oferecidos nas edições do GDF Mais Perto do Cidadão, que ocorre duas vezes por mês por diversas regiões administrativas. Basta acessar o site da Sejus-DF para conferir as datas e locais de cada edição.

Secretaria da Mulher

– Acolher Eles e Elas — beneficia crianças e adolescentes órfãos de vítimas de feminicídio com o benefício de um salário mínimo e atendimentos psicossociais. As famílias podem entrar em contato pelos telefones (61) 3330-3118 e (61) 3330-3105.

– Aluguel Social para Mulheres Vítimas de Violência Doméstica — o benefício de R$ 600 mensais é concedido inicialmente por seis meses, com possibilidade de prorrogação. Informações: 3330-3105.

– Nove Espaços Acolher — Plano Piloto, Brazlândia, Gama, Paranoá, Planaltina, Santa Maria, Sobradinho, Samambaia, Ceilândia.

– Uma Casa Abrigo (Entrada mediante encaminhamento da delegacia)

– Uma Casa da Mulher Brasileira em Ceilândia e outras quatro unidades em construção. Número para acolhimento e triagem: (61) 3371-2637.

– Três Centros Especializados de Atendimento às Mulheres (CEAMs) — 102 SUL (PLANO PILOTO), CEAM – II – PLANALTINA e CEAM IV. Os endereços estão disponíveis no site da pasta e podem ser acessados 24h, sem necessidade de agendamento

– Seis Comitês de Proteção à Mulher (Itapoã, Ceilândia, Lago Norte, Estrutural, Sobradinho e Águas Claras). Os endereços estão disponíveis no site da Secretaria da Mulher e podem ser acessados 24h, sem necessidade de agendamento.

– Programa Movimente — facilita o acesso das mulheres a serviços públicos voltados ao empreendedorismo, promovendo a autonomia econômica. Veja mais informações no site da Secretaria da Mulher.

– ACTs — a SMDF também formaliza Acordos de Cooperação Técnicas com o governo federal e órgãos do Judiciário e do Legislativo para fortalecer a política de enfrentamento à violência contra as mulheres. O acordo determina que as vagas incluam mulheres trans, travestis, quilombolas, indígenas, refugiadas e outras possibilidades do gênero feminino. Atualmente, a pasta tem parceria com 11 ACTs, com 17 órgãos, com 230 mulheres empregadas em locais como STJ, Senado Federal e Câmara Legislativa do DF.

Defensoria Pública:

– Projeto Dia da Mulher — oferece serviços em rede para atender às mulheres em situação de vulnerabilidade. Realizado toda primeira segunda-feira do mês, das 8h às 17h, no Setor Comercial Norte, Quadra 1, Edifício Rossi Esplanada Business (Nuclão), próximo ao Hospital Regional da Asa Norte (Hran).

– Núcleo de Assistência Jurídica de Promoção e Defesa das Mulheres (Nudem) — promove a defesa dos interesses das mulheres, especialmente as vítimas de violência de gênero. O núcleo também atua na assistência jurídica individual das vítimas de violência doméstica. Contato pelos telefones (61) 3465-8200 ou (61) 9 8272-5123

– Central de Relacionamento com os Cidadãos da DPDF (CRC/DPDF) — possui um ramal exclusivo para o atendimento e o acolhimento de mulheres vítimas de violência doméstica. Não se trata de um canal de denúncia, mas de escuta dessas mulheres. Os atendimentos são realizados por servidoras capacitadas para acolher as vítimas da melhor forma possível. A ligação é gratuita, basta ligar 129 – dígito 2.

– Projeto Volte a Sorrir — promove o tratamento e o acolhimento de mulheres vítimas de violência doméstica que sofreram danos bucais, restaurando a autoestima e a dignidade delas. As instituições recepcionam e acolhen as mulheres por meio da Subsecretaria de Atividade Psicossocial (Suap). Os telefones de contato são: (61) 2196-4468 ou (61) 2196-4507.

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Feirão Pense Auto de veículos seminovos acontece no estacionamento do Paço em Sorocaba

Sorocaba receberá o Feirão Pense Auto – Santander, uma grande feira de venda de carros e motos seminovos, com preços imperdíveis e condições facilitadas de financiamento, no estacionamento do Paço Municipal, no Alto da Boa Vista. O evento será realizado de 20 a 23 de março, das 9h às 21h, e reunirá diversas concessionárias e revendas do setor automotivo, startups do ramo e instituições financeiras, como o parceiro Santander, que oferecerá condições especiais para a aquisição dos veículos.

Serão mais de 500 carros seminovos à venda, desde utilitários até SUVs, nacionais e importados, atendendo a diferentes perfis e orçamentos, além de motos diversas. Com a facilidade do financiamento, os visitantes poderão sair do evento já dirigindo seu carro novo, com seguro garantido pela financeira.

A empresária Rita Merígio, da Styllus Comunicação e Eventos, agência organizadora do Feirão, destaca que essa é uma oportunidade única para quem deseja trocar de carro ou adquirir o primeiro veículo.

“Estamos trazendo condições especiais, com prazos maiores e taxas de financiamento reduzidas, tornando a compra ainda mais acessível. Com o apoio do Santander, essa é, sem dúvida, a melhor oportunidade do ano para realizar essa conquista”, afirma.

“Estamos trazendo condições especiais, com prazos maiores e taxas de financiamento reduzidas, tornando a compra ainda mais acessível. Com o apoio do Santander, essa é, sem dúvida, a melhor oportunidade do ano para realizar essa conquista”, afirma.

O Paço Municipal fica localizado na Avenida Engenheiro Carlos Reinaldo Mendes, 3.041, no Alto da Boa Vista.

Serviço

Feirão Pense Auto – Sorocaba (SP)

Data: 20 a 23 de março

Horário: 9h às 21h

Local: Estacionamento do Paço Municipal

Endereço: Avenida Engenheiro Carlos Reinaldo Mendes, 3.041, no Alto da Boa Vista, Sorocaba/SP

Com 1,2 mil empresas, startups crescem 33% em apenas dois anos no DF

No Distrito Federal, a inovação encontra um espaço fértil. Prova disso é que o número de startups cresceu significativamente entre 2023 e 2025, segundo levantamento da Brasil Startups. O salto foi de 33%, considerando que, há dois anos, havia 900 startups e, neste ano, já são 1,2 mil. Além da capital do país ser a quarta cidade mais empreendedora do Brasil, segundo o Índice de Cidades Empreendedoras (ICE), investimentos públicos e privados têm impulsionado o avanço.

Com cenário propício para o desenvolvimento de empresas inovadoras e tecnológicas, o DF é a segunda unidade federativa do Brasil com o maior número de startups proporcionalmente à quantidade de habitantes, ficando atrás apenas de Santa Catarina. São Paulo e Rio de Janeiro ocupam a quarta e sexta posições, respectivamente.

Em 2024, a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti-DF) implementou algumas iniciativas com o objetivo de estimular a criação e o desenvolvimento de startups, a exemplo dos projetos Avante Cerrado, Agro Hack Ideias e Hack Ideias — Empreender é para elas (leia abaixo). A Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), por sua vez, também tem lançado iniciativas para apoiar as startups da região, a exemplo dos editais dos programas Start BSB e Centelha.

O secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do DF, Leonardo Reisman, destacou o fato de Brasília ter um cenário acadêmico forte, com mestres, doutores e projetos que ajudam a capacitar pessoas que desejam investir em inovação. “Além disso, aqui é o centro do poder e os órgãos governamentais têm investido cada vez mais em soluções tecnológicas, o que acaba incentivando o mercado de startups”, ressaltou.

“Acreditamos na manutenção dos esforços em construir e manter um ecossistema de inovação que realmente integre o conhecimento acadêmico, o fomento governamental e dinamismo do empreendedor”, destacou Reisman. “Para além disso, temos no Distrito Federal uma ampla participação do terceiro setor e de entidades representativas dos mais diversos setores da economia nas atividades ligadas à promoção da cultura da inovação em nossa cidade”, acrescentou.

Só este ano, o setor vai receber investimentos de R$ 22 milhões, sendo R$ 5 milhões do GDF e R$17 milhões vindos do governo federal por meio dos programas Startup Brasília e Tecnova. Além disso, a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) assinou um convênio com o Instituto Federal de Brasília (IFB) para a estruturação de uma Escola de Negócios na cidade. Serão investidos R$ 12,9 milhões para a criação dessa unidade, que funcionará como um Hub de Inovação e Empreendedorismo Digital no campus do Instituto, na Asa Norte.

Com o Hub de Inovação e Empreendedorismo Digital, a expectativa é atingir a criação de 50 novas startups e microempresas, oferecer consultorias para cerca de 100 micro e pequenos empreendedores por semestre, realizar 30 cursos e workshops anuais em diversas áreas, e, no primeiro ano, alcançar a participação de 1.000 empreendedores em sessões de treinamento. “A meta para 2025 é atingir um aumento médio de 30% na maturidade digital do setor produtivo atendido. Essa iniciativa tem por objetivo impulsionar a economia do DF com estímulos à abertura de negócios e de novas soluções digitais”, explicou o presidente da ABDI, Ricardo Cappelli.

As startups do DF estão em diversos setores da economia, com destaque para tecnologia da informação, educação e saúde e bem-estar. O modelo de negócio predominante é o B2B (Business to Business), adotado por 46,69% das startups.

Um exemplo de empresa brasiliense de sucesso que funciona no modelo B2B — quando uma empresa vende produtos e/ou serviços para outra empresa — é a Onsurance, que comercializa créditos de seguros e é uma das startups de mais sucesso na capital do país. A empresa funciona também no modelo B2C — quando a comercialização acontece entre a empresa e o cliente. Em funcionamento desde 2017, a Onsurance também tem sede nos Estados Unidos. “Eu entrei com o capital e trabalho e meu sócio com trabalho, aí começamos a startup. Criamos um site para testar a demanda e a aceitação foi excelente logo de início”, disse o CEO Ricardo Bernardes.

Outra startup de sucesso da área de tecnologia é a Sisterwave, uma comunidade de apoio e conexão local para mulheres viajantes. “Abrimos a empresa em 2019, mas apresentamos no Startup Weekend Women em 2017 e ganhamos o primeiro lugar”, destacou a CEO Jussara Pellicano. “Acho que é importante estarmos sempre criando e fomentando novos ecossistemas de inovação. Brasília tem boas oportunidades de inovação e acesso à capital”, enfatizou.

Brasília também tem um nome forte no ramo das chamadas edtechs, isto é, startups de tecnologias voltadas à educação. Fundado em 2012, o Gran Cursos surgiu com a proposta de democratizar o ensino direcionado a concursos públicos por meio da tecnologia, área de grandes oportunidades na capital federal. “Na época, a única opção para quem queria se preparar para concursos públicos eram os cursos presenciais, concentrados em metrópoles e capitais — o que gerava custos elevados com mensalidades, transporte e materiais. O Gran nasceu como solução para aqueles que não tinham acesso a essa realidade”, explicou o CEO Gabriel Granjeiro.

Gabriel Granjeiro e Rodrigo Calado: soluções para concursos

Avante Cerrado

» Tem o intuito de estimular a criação de novos negócios, produtos e serviços. O projeto atendeu a 62 startups em estágio inicial, além de empreendedores de baixa renda, os quais receberam mentorias, palestras e acesso à plataforma de cursos on-line. Os encontros abordaram temas fundamentais para quem quer montar o próprio negócio, como educação financeira e gestão. As mentorias, por sua vez, foram focadas no desenvolvimento de habilidades, experiência de mercado, planejamento estratégico, networking e acompanhamento personalizado. Após a conclusão da trilha de aprendizagem, os participantes receberam bolsas de subvenção econômica de até cinco mil reais para desenvolverem suas ideias e modelos de negócio.

Agro Hack Ideias

» Foi realizada durante a Agro Brasília, em maio, a maratona “Agro Hack Ideias” reuniu produtores, startups, investidores, empresas e entidades com o objetivo de impulsionar a pesquisa e a experiência tecnológica por meio do desenvolvimento de soluções inovadoras e criativas para os desafios enfrentados pelo setor agropecuário. Ao todo, o projeto teve 14 startups participantes que desenvolveram projetos com base em três eixos: Porteira afora, Porteira adentro e Sustentabilidade. As discussões abordaram desde a gestão empresarial e práticas de conservação ambiental até o acesso a dados e informações sobre o mercado agropecuário. As equipes que criaram as três soluções mais promissoras receberam premiações de

R$ 10 mil, R$ 6 mil, e R$ 3 mil, respectivamente.

Hack Ideias

» Empreender é para elas — Foi realizado em agosto passado na Universidade Católica, buscou mobilizar talentos para combater o feminicídio em Brasília. Ao todo, 11 startups se inscreveram para participar. As três melhores propostas foram premiadas, sendo R$ 5 mil para o primeiro lugar, R$ 3 mil para o segundo e R$ 2 mil para o terceiro. O primeiro lugar foi conquistado pelo projeto Acadêmicos, uma extensão da Universidade Católica de Brasília, esse projeto visa criar uma comunidade onde mulheres possam expressar suas vozes, oferecendo um espaço para diálogo, além de suporte jurídico, psicológico e social para vítimas de violência.

Start BSB

» É dividido em três fases atende startups em diferentes estágios de maturidade, oferecendo apoio financeiro e expertise. A fase I corresponde à Ideação e Desenvolvimento de Habilidades — focada em empreendedores com ideias iniciais, esta etapa é conduzida pela UnB/Finatec e apoiará 50 startups por ano com fomento de até R$ 53 mil; a fase II é a de Incubação e Pré-aceleração — gerida pelo Instituto Multiplicidades, esta etapa apoia 35 startups anualmente, oferecendo até

R$ 110 mil para validação de MVPs. Já na fase III — Aceleração — startups que buscam expansão de mercado contarão com a Cotidiano Aceleradora de Startups e poderão receber até R$ 200 mil em fomento, beneficiando 20 startups por ano.

Programa Centelha

» É promovido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) e a Fundação Certi. Executada de forma descentralizada, a iniciativa conta com a participação de 25 estados e do DF, e a expectativa é que sejam criadas cerca de mil novas startups, com o envolvimento de pelo menos 50 mil empreendedores. Em sua primeira edição, foram mais de 15 mil ideias inovadoras submetidas em mais de mil municípios. No DF, a iniciativa é executada pela FAPDF, Biotic S/A e Terracap e já selecionou 28 startups para receber suporte a fim de transformar boas ideias em negócios de sucesso. Cada uma delas recebeu até R$ 60 mil, além de seis meses de capacitação empreendedora, entre outros benefícios.

Sebrae Startups

» O Sebrae tem apoiado os empreendedores das startups via produção de conteúdo, promoção de capacitação, consultorias e eventos de mercado. Além de promover um ambiente de conexão e colaboração entre as startups locais e o ecossistema local de inovação, o Sebrae ainda disponibiliza uma plataforma digital com uma série de capacitações e outros benefícios para as startups que se cadastram na plataforma

Sebrae Startups.

No próximo dia 22, Brasília vai receber o Startup day, um evento idealizado pelo Sebrae Startups e cocriado com o ecossistema de inovação que acontece, simultaneamente, em todo o Brasil. O evento reúne o ecossistema de inovação em uma programação com palestrantes que são referência para falar sobre empreendedorismo e inovação. Na última edição, que aconteceu em março de 2024, foram realizados eventos em todos os 26 estados e Distrito Federal, com a participação de 184 municípios. No total, mais de 26 mil pessoas participaram.

O Startup day acontecerá no SebraeLAB, no Parque Tecnológico de Brasília. Os ingressos são gratuitos e podem ser adquiridos na plataforma Sympla.

A quinta edição do Innova Summit acontecerá de 24 a 26 de junho deste ano em Brasília. O evento deve contar com estandes de startups, além de empreendedores e influenciadores de renome. A edição de 2024 foi gratuita e a expectativa é que a deste ano também seja.

O Innova Summit é uma conferência de inovação, conhecimento, empreendedorismo, tecnologia, networking e oportunidades de negócios. É realizado pelo Instituto Conecta Brasil, com apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do DF (Secti-DF) e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

A quinta edição do Innova Summit acontecerá de 24 a 26 de junho deste ano em Brasília. O evento deve contar com estandes de startups, além de empreendedores e influenciadores de renome. A edição de 2024 foi gratuita e a expectativa é que a deste ano também seja.

O Innova Summit é uma conferência de inovação, conhecimento, empreendedorismo, tecnologia, networking e oportunidades de negócios. É realizado pelo Instituto Conecta Brasil, com apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do DF (Secti-DF) e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

Avante Cerrado

» Tem o intuito de estimular a criação de novos negócios, produtos e serviços. O projeto atendeu a 62 startups em estágio inicial, além de empreendedores de baixa renda, os quais receberam mentorias, palestras e acesso à plataforma de cursos on-line. Os encontros abordaram temas fundamentais para quem quer montar o próprio negócio, como educação financeira e gestão. As mentorias, por sua vez, foram focadas no desenvolvimento de habilidades, experiência de mercado, planejamento estratégico, networking e acompanhamento personalizado. Após a conclusão da trilha de aprendizagem, os participantes receberam bolsas de subvenção econômica de até cinco mil reais para desenvolverem suas ideias e modelos de negócio.

Agro Hack Ideias

» Foi realizada durante a Agro Brasília, em maio, a maratona “Agro Hack Ideias” reuniu produtores, startups, investidores, empresas e entidades com o objetivo de impulsionar a pesquisa e a experiência tecnológica por meio do desenvolvimento de soluções inovadoras e criativas para os desafios enfrentados pelo setor agropecuário. Ao todo, o projeto teve 14 startups participantes que desenvolveram projetos com base em três eixos: Porteira afora, Porteira adentro e Sustentabilidade. As discussões abordaram desde a gestão empresarial e práticas de conservação ambiental até o acesso a dados e informações sobre o mercado agropecuário. As equipes que criaram as três soluções mais promissoras receberam premiações de

R$ 10 mil, R$ 6 mil, e R$ 3 mil, respectivamente.

Hack Ideias

» Empreender é para elas — Foi realizado em agosto passado na Universidade Católica, buscou mobilizar talentos para combater o feminicídio em Brasília. Ao todo, 11 startups se inscreveram para participar. As três melhores propostas foram premiadas, sendo R$ 5 mil para o primeiro lugar, R$ 3 mil para o segundo e R$ 2 mil para o terceiro. O primeiro lugar foi conquistado pelo projeto Acadêmicos, uma extensão da Universidade Católica de Brasília, esse projeto visa criar uma comunidade onde mulheres possam expressar suas vozes, oferecendo um espaço para diálogo, além de suporte jurídico, psicológico e social para vítimas de violência.

Start BSB

» É dividido em três fases atende startups em diferentes estágios de maturidade, oferecendo apoio financeiro e expertise. A fase I corresponde à Ideação e Desenvolvimento de Habilidades — focada em empreendedores com ideias iniciais, esta etapa é conduzida pela UnB/Finatec e apoiará 50 startups por ano com fomento de até R$ 53 mil; a fase II é a de Incubação e Pré-aceleração — gerida pelo Instituto Multiplicidades, esta etapa apoia 35 startups anualmente, oferecendo até

R$ 110 mil para validação de MVPs. Já na fase III — Aceleração — startups que buscam expansão de mercado contarão com a Cotidiano Aceleradora de Startups e poderão receber até R$ 200 mil em fomento, beneficiando 20 startups por ano.

Programa Centelha

» É promovido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) e a Fundação Certi. Executada de forma descentralizada, a iniciativa conta com a participação de 25 estados e do DF, e a expectativa é que sejam criadas cerca de mil novas startups, com o envolvimento de pelo menos 50 mil empreendedores. Em sua primeira edição, foram mais de 15 mil ideias inovadoras submetidas em mais de mil municípios. No DF, a iniciativa é executada pela FAPDF, Biotic S/A e Terracap e já selecionou 28 startups para receber suporte a fim de transformar boas ideias em negócios de sucesso. Cada uma delas recebeu até R$ 60 mil, além de seis meses de capacitação empreendedora, entre outros benefícios.

Sebrae Startups

» O Sebrae tem apoiado os empreendedores das startups via produção de conteúdo, promoção de capacitação, consultorias e eventos de mercado. Além de promover um ambiente de conexão e colaboração entre as startups locais e o ecossistema local de inovação, o Sebrae ainda disponibiliza uma plataforma digital com uma série de capacitações e outros benefícios para as startups que se cadastram na plataforma

Sebrae Startups.

No próximo dia 22, Brasília vai receber o Startup day, um evento idealizado pelo Sebrae Startups e cocriado com o ecossistema de inovação que acontece, simultaneamente, em todo o Brasil. O evento reúne o ecossistema de inovação em uma programação com palestrantes que são referência para falar sobre empreendedorismo e inovação. Na última edição, que aconteceu em março de 2024, foram realizados eventos em todos os 26 estados e Distrito Federal, com a participação de 184 municípios. No total, mais de 26 mil pessoas participaram.

O Startup day acontecerá no SebraeLAB, no Parque Tecnológico de Brasília. Os ingressos são gratuitos e podem ser adquiridos na plataforma Sympla.

O crescente movimento de empresas que abandonam políticas de diversidade nos EUA

Meses após relançar seu desfile anual prometendo mais diversidade para “celebrar todas as mulheres”, a marca de lingerie Victoria’s Secret mudou suas políticas sobre diversidade, equidade e inclusão (DEI) e suspendeu a meta de promoção para funcionários negros.

A empresa substituiu menções diretas a DEI por termos mais genéricos como “pertencimento” e removeu de seu site a seção sobre diversidade entre seus fornecedores.

As mudanças foram anunciadas em um comunicado interno, divulgado pela imprensa americana na quarta-feira (05/03), e assinado pela CEO, Hillary Super.

Super afirmou que a empresa continuará garantindo uma equipe “inclusiva, com uma ampla variedade de origens, experiências e perspectivas” e prometeu promover “uma cultura de justiça e oportunidade para todos”.

A Victoria’s Secret segue uma tendência cada vez mais forte nos Estados Unidos desde a posse de Donald Trump.

McDonald’s, Amazon, Google, Meta, Deloitte… Vem crescendo o número de grandes empresas que têm abandonado programas e políticas voltadas à promoção de diversidade.

Disney foi uma das empresas que recuaram em políticas de diversidade e inclusão após volta de Trump à Casa Branca

A Disney entrou para esse grupo ao anunciar, em fevereiro, que passaria a “focar mais nos resultados comerciais”.

Entre as mudanças, a empresa deixará de exibir avisos que contextualizam estereótipos e representações negativas em filmes clássicos como Dumbo e Peter Pan.

Apesar disso, prometeu manter processos de contratação “sem barreiras” e reforçou o compromisso de “defender intencionalmente uma cultura de pertencimento”.

Desde 2022, a Disney tem sido alvo de setores conservadores por suposto “ativismo woke” — termo pejorativo usado pela direita americana para criticar debates e políticas voltadas a questões sociais, como racismo e diversidade sexual.

A empresa enfrentou ataques, por exemplo, após escalar uma atriz negra como protagonista do live-action de A Pequena Sereia.

O movimento de abandono das políticas de diversidade, impulsionado por ativistas conservadores, se intensificou com o retorno de Trump à Casa Branca.

No dia de sua posse, em 20 de janeiro, o republicano determinou o encerramento, em até 60 dias, dos programas federais de diversidade e inclusão, considerados “radicais e ineficazes”, assim como as iniciativas de justiça ambiental.

No entanto, especialistas apontam que o enfraquecimento dessas políticas já havia começado antes.

Em junho de 2023, a Suprema Corte dos Estados Unidos declarou inconstitucional o uso de cotas em universidades, que visavam aumentar a presença de estudantes negros, hispânicos e de outros grupos sub-representados.

“O aluno deve ser tratado com base em suas experiências como indivíduo, não com base em sua raça”, afirmou o presidente da Corte, o conservador John Roberts.

Os magistrados decidiram que as universidades podem considerar a experiência pessoal de um candidato, como a vivência de racismo, mas consideraram discriminação racial usar critérios raciais para determinar sua admissão.

A decisão gerou insegurança jurídica também no setor privado, com o entendimento de que qualquer ação afirmativa poderia ser considerada inconstitucional.

Desde 2024, Estados como Alabama e Iowa aprovaram leis proibindo projetos e treinamentos de DEI em instituições públicas.

Entre as vozes mais críticas às iniciativas de diversidade estão o gestor de fundos Bill Ackman e Elon Musk — ambos com grande alcance nas redes sociais.

Os argumentos contrários dizem que programas beneficiam desproporcionalmente grupos marginalizados.

Em uma postagem viral no X, Musk declarou: “A ideia [da DEI] era acabar com a discriminação, não substituí-la por outro tipo de discriminação”.

A fala de Musk ecoa o sentimento de críticos da DEI, que afirmam que os programas, supostamente, promovem mais discriminação.

Trump determinou o encerramento de programas federais de diversidade e inclusão, considerados “radicais e ineficazes”

Preocupação e reuniões de emergência nas empresas

Em 2023, o The Conference Board, uma associação empresarial e centro de pesquisa sobre tendências de negócios, analisou as iniciativas de impacto social de seus associados.

A igualdade racial ocupava o segundo lugar entre as preocupações corporativas, atrás apenas de ações emergenciais pós-desastres.

Mas, em janeiro deste ano, a organização descobriu que um quarto de um grupo de cem empresas indicou que reduziria seu foco em iniciativas voltadas à igualdade racial e de gênero.

A pesquisadora Marion Devine relata que empresas têm solicitado reuniões emergenciais à organização para discutir o tema.

“A reação contrária à DEI já começava antes da eleição. Os ventos dessa mudança já estavam soprando, por assim dizer. As empresas estavam atentas, observando e aguardando”, afirma Devine.

“Agora, o maior desafio é lidar com a incerteza que ela gera. Sem dúvida, há um sentimento de apreensão e preocupação entre os empresários.”

Em agosto de 2023, o Fearless Fund, um fundo de capital de risco com sede em Atlanta que apoia startups fundadas por mulheres negras, foi processado pela American Alliance for Equal Rights, uma organização que contesta “distinções e preferências baseadas em raça e etnia”.

Os autores alegam que o fundo é discriminatório por excluir empreendedores que não sejam mulheres negras, violando assim a Lei dos Direitos Civis de 1866. Em fevereiro, a CEO do Fearless Fund, Arian Simone, afirmou a jornalistas que a empresa já perdeu “milhões de dólares” por causa do processo.

Devine relata que, após a decisão da Suprema Corte, empresas interromperam certas atividades de forma abrupta, com receio de retaliações na Justiça.

Algumas pararam de patrocinar eventos do Dia do Orgulho LGBT, enquanto outras dissolveram grupos de funcionários dedicados à diversidade, como fóruns de mulheres ou pessoas LGBT.

“Esse foi o primeiro impacto”, diz Devine. “Agora, especialmente nas grandes multinacionais, há um período mais reflexivo. As empresas estão tentando entender onde estão pisando e o que as outras estão fazendo.”

Devine destaca que há uma grande aversão à incerteza e ao fato de o cenário estar mudando: “Além disso, há uma forte preocupação com a possibilidade de práticas que eram legais até recentemente se tornarem ilegais”.

Outro receio é o aumento das reclamações sobre uma suposta “discriminação reversa”, com funcionários alegando exclusão de programas de desenvolvimento profissional por não fazerem parte de minorias.

“Também há a pressão dos acionistas, que já estão exigindo o fim dos programas de diversidade e inclusão. Isso já está acontecendo”, afirma Devine.

Ela cita o caso da Apple, que recentemente se defendeu contra essas pressões, argumentando que são uma interferência indevida nas estratégias da empresa.

A pesquisadora também aponta que as empresas temem exposição negativa nas redes sociais.

“Elas estão muito sensíveis a danos à reputação, campanhas online contra elas e até boicotes de consumidores”, diz Devine.

“No geral, a principal preocupação é o risco — e as empresas detestam riscos.”

‘Postura ideológica’

Além disso, Devine destaca a preocupação com possíveis impactos econômicos de empresas que não se alinharem às tendências anti-DEI.

“As empresas podem perder contratos ou ser impedidas de participar de licitações, o que pode ter um efeito significativo sobre seus negócios e reputações”, diz a pesquisadora.

“Há um risco comercial considerável envolvido.”

Por outro lado, muitas empresas continuam convencidas de que manter um ambiente de trabalho justo e inclusivo é essencial, segundo Devine.

“Na verdade, acredito que veremos uma mudança na linguagem: o termo ‘diversidade’ pode perder espaço, enquanto palavras como ‘inclusivo’ devem ganhar mais destaque.”

Luanny Faustino, sócia da consultoria Tree Diversidade e especialista em DEI e ESG (sigla em inglês para políticas corporativas ambiental, social e de governança), vê essas mudanças como reflexo de um alinhamento político de empresários com Trump.

“Quando Mark Zuckerberg [fundador do Facebook] diz que as empresas precisam de mais ‘masculinidade’ na liderança e, em seguida, retira os apoios à diversidade e inclusão na Meta, isso é uma postura ideológica”, afirma Faustino.

Mark Zuckerberg, CEO da Meta, anunciou uma série de mudanças nas políticas da empresa

Segundo ela, muitas empresas usaram justificativas jurídicas e políticas para sustentar uma posição que já tinham.

“Empresas como a Meta não estão financeiramente vulneráveis”, diz Devine.

“Esse posicionamento não tem a ver com orçamento ou dificuldades financeiras. É uma escolha ideológica.”

Faustino destaca que, por outro lado, algumas companhias estão indo na contramão desse movimento e reafirmando seu compromisso com as políticas de DEI, como a Apple.

No Brasil, o empresário Luciano Hang, dono da Havan e aliado do grupo político do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), publicou um vídeo nas redes sociais para comentar sobre uma suposta agenda woke.

Ele afirmou acreditar que o desempenho profissional deve ser o único critério de contratação e promoção de colaboradores na empresa.

“Na Havan, sempre adotamos uma política baseada no desempenho e dedicação dos colaboradores, independentemente de raça, cor ou religião. Contratamos e promovemos aqueles que se destacam, que são bons no que fazem e têm vontade de trabalhar”, disse Hang.

A vice-presidente executiva de pessoas da Vale, Cátia Porto, também falou do assunto em uma publicação nas redes sociais, ao dizer que a “cultura woke” está perdendo espaço nas empresas.

“Ao contrário do DEI, que foca na diversidade como elemento-chave, há um novo movimento chamado MEI (Mérito, Excelência e Inteligência), que enfatiza uma combinação de mérito e altos padrões de desempenho, juntamente com habilidades intelectuais”, escreveu nas redes sociais.

A Vale afirmou, no entanto, que não mudou suas políticas e diretrizes de diversidade e inclusão.

Tendências globais e para o Brasil

Lígia Maura Costa, professora de ESG da Fundação Getúlio Vargas, observa que essa tendência de abandono de políticas de diversidade nas empresas podem chegar ao Brasil como “maré”, por pressão de investidores.

“Se o meu acionista não considera mais esses projetos como investimentos, vou reduzir estes custos”, diz Costa.

“Mas as empresas se esquecem do valor que essas iniciativas podem agregar.”

A professora ressalta que essa mudança de perspectiva pode ser prejudicial a longo prazo.

“Quando as empresas decidem interromper essas ações, elas enfrentam dificuldades para retomar o caminho em um futuro próximo”, diz Costa.

“Daqui a quatro anos, será muito mais complicado recuperar o que foi perdido.”

Costa também levanta a questão da autenticidade do compromisso das empresas com a diversidade.

“O que estamos vendo agora pode ser um teste para entender até que ponto as organizações realmente acreditavam nessas iniciativas”, diz a professora.

“Será que era uma crença genuína ou apenas uma tendência passageira?”

Luanny Faustino diz que ainda não observa essa tendência se repetir no Brasil e acredita que o país segue em direção oposta.

Sua consultoria, que atende mais de 250 clientes, entre eles Johnson&Johnson, BRF, Siemens e Pirelli, ainda não sentiu os impactos desse movimento dos Estados Unidos.

“Claro que não posso garantir que não acontecerá, mas, no presente, não vemos essa mudança”, diz a consultora.

Ainda assim, ela avalia possíveis reflexos.

“Há lideranças que faziam o que todo mundo estava fazendo, sem nunca conseguir entender de verdade os pilares de diversidade, equidade, e inclusão”, diz Costa.

“Neste caso, elas podem se utilizar dessa brecha para realmente desacelerar seus programas. Mas as que entenderam todas essas mudanças, não.”

Faustino lembra que, diferentemente dos Estados Unidos, o Brasil tem respaldo legal para ações afirmativas, como a Lei das Cotas e a Lei de Igualdade Salarial.

Além disso, o governo Lula tem fortalecido políticas públicas na área.

O McDonald’s cancelou as ações de diversidade e inclusão no exterior, por exemplo, mas a Arcos Dourado, que administra a marca no Brasil, informou que continua com todas as ações na área.

Na Europa, ressalta a consultora, a tendência é inversa, com crescente pressão regulatória por ESG e sustentabilidade.

Esse cenário, diz Devine, cria desafios para empresas globais: “Elas temem que investigações nos Estados Unidos questionem suas práticas em outras regiões”.

Pastores brasileiros nos EUA se equilibram entre afinidade com Trump e o temor por fiéis: ‘Primeiro imigrante sem documentos foi Abraão’

No culto do último dia 16 de fevereiro, o pastor Paulo Tenório subiu ao púlpito da igreja pentecostal brasileira The Growing Church, em Massachusetts, nos Estados Unidos, e pregou sobre “o medo que leva ao esconderijo”.

“Quando os soldados de Israel viram que a situação era difícil, esconderam-se em cavernas e buracos”, lia o pastor, junto aos fiéis, um trecho da Bíblia, acrescentando: “É hora de declarar que o Deus que me trouxe aos Estados Unidos me levará até o final”.

O recado para os brasileiros presentes era a necessidade de “seguir firme” em tempos de medo.

“As medidas de [Donald] Trump trouxeram muito abalo para as pessoas. Uma coisa muito difícil está sendo vivida aqui,”, diz Tenório à BBC News Brasil, sobre o endurecimento da política de imigração do novo governo americano.

Massachussetts abriga junto com a Flórida a maioria das 2 milhões de pessoas que fazem parte da comunidade brasileira nos EUA.

Donald Trump se elegeu prometendo a maior deportação da história do país, que tem cerca de 12 milhões de imigrantes em situação irregular — há ao menos 230 mil brasileiros entre eles, de acordo com o Pew Research Center.

Trump fez campanha dizendo que a imigração para os Estados Unidos estava descontrolada, fazendo o país ser “invadido” por estrangeiros, que estariam “envenenando o sangue” do país, “tomando vagas de emprego” de americanos e pressionando serviços públicos.

Além de enviar o Exército para a fronteira, em seu primeiro dia na Casa Branca, em 20 de janeiro, a nova gestão Trump revogou a proteção contra operações migratórias em “locais sensíveis” nas comunidades e bairros ao redor do país.

“Os criminosos não poderão mais se esconder nas escolas e igrejas da América para evitar a prisão”, afirmou um porta-voz do Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), que atua para colocar em prática as políticas migratórias americanas.

De lá para cá, operações se espalharam pelos Estados Unidos, e o pânico se instalou nos grupos de WhatsApp de evangélicos brasileiros.

Além da tensão, a comunidade evangélica brasileira tenta se equilibrar entre as afinidades com Trump e a nova ênfase da política migratória.

Por um lado, boa parte dos imigrantes brasileiros evangélicos apoiaram a volta do republicano à Casa Branca — graças a bandeiras como o combate a políticas de gênero e aborto e o apoio ao empreendedorismo.

Por outro, uma parcela desta mesma comunidade é alvo da prioridade número um da gestão: prender e deportar o maior número possível de imigrantes sem documentos.

A situação já provocou mudanças concretas no cotidiano dos brasileiros.

A BBC News Brasil conversou com seis pastores na Flórida e em Massachusetts que relataram ter visto encolher a presença de fiéis em suas igrejas ou em instituições de colegas nas semanas que sucederam à chegada de Trump à Casa Branca, já que alguns evangélicos deixaram de se sentir seguros não só no trajeto aos templos, mas até mesmo durantes os cultos.

Agentes do ICE prendem homem em condomínio de Denver, Colorado

Ajuda legal e afinidade com Trump

Também liderada por brasileiros, a Igreja Presbiteriana CTK United aprovou um novo gasto fixo em seu orçamento mensal desde a volta de Trump à Presidência.

Os mais de 600 fiéis que congregam em templos de Massachusetts, Connecticut e Washington D.C. têm agora à disposição um advogado especializado em imigração para prestar assistência.

É a primeira vez que a instituição toma tal medida, embora tenha entre os frequentadores 30% de imigrantes sem documentos.

“As pessoas começaram a perguntar: se eu for surpreendido, meu filho vai ficar com quem? As minhas coisas ficam com quem?”, conta o pastor Pedro Lino, líder da CTK United.

Na igreja dirigida pelo pastor Júnior Ramos, a Waves of Revival, em Framingham, em Massachussets, ao menos 12 famílias já assinaram documentos que dão a Ramos a guarda de suas crianças em caso de prisão e deportação dos pais.

Com quase metade dos fiéis na condição de imigrantes em situação irregular, o pastor percebeu uma redução em cerca de 30% na frequência dos membros da igreja nas primeiras semanas do novo governo, movimento que agora está refluindo.

“Há um pânico, e é inevitável que isso afete as comunidades. O próprio governo atua para colocar medo para que as pessoas se autodeportem”, diz Ramos, citando um comercial de TV do DHS que estimula imigrantes em situação irregular a voltarem a seus países de origem para evitar serem detidos por agentes do governo.

Embora a Constituição dos Estados Unidos proteja atos religiosos, como cultos, de interrupção por agentes de segurança ou imigração, muitos pastores passaram a demonstrar dúvidas sobre como lidar com uma possível batida do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) nas igrejas.

Diante da demanda, a Associação de Pastores de Orlando chegou a fazer uma plenária com três escritórios de advocacia especializados em imigração para orientar os líderes das mais de cem igrejas associadas.

“Se o ICE bater numa igreja, qual o procedimento? Eles podem só chegar e entrar? Não. Tem todo um protocolo, tem que mostrar um mandado assinado por um juiz federal, com um alvo específico, não pode interromper o culto, nem fazer varredura dos fiéis”, diz o pastor André Loyola, presidente da associação.

Segundo ele, nenhuma batida do tipo aconteceu até agora em nenhum templo da região. Ainda assim, os líderes começaram a criar estratégias para potencialmente lidar com uma situação tensa.

“Se o agente chega, você precisa ter a calma de ser cooperativo, não estamos contra a lei”, diz Loyola.

“O que sugerimos é treinar dois ou três membros da comunidade que falem bem inglês e que possam entender o que os agentes precisam, para que se possa discretamente cooperar, sem criar um pânico no público.”

Pastor Pedro Lino, da Igreja Presbiteriana CTK United

Panfleto distribuído em Atlanta orienta imigrantes a lidarem com o ICE, serviço de imigração dos EUA

Apesar do atual desconforto com a ameaça aos fiéis, a maioria dos pastores ouvidos pela BBC News Brasil apoia e considera corretas as medidas do presidente americano.a

“As leis existem para ser cumpridas, e cada presidente tem sua agenda, mas não vai acontecer essa violação, de invadirem igrejas, a menos que a igreja esteja cheia só de bandidos”, afirma o pastor Leidmar Lopes, da Alliance Church, na Flórida.

Uma das principais referências brasileiras evangélicas no país, o pastor Lopes é um entusiasta de Trump e tem colaborado com o recém-criado Escritório da Fé, ligado à Casa Branca.

O Escritório da Fé tem a função de investigar e denunciar qualquer tipo de “discriminação contra cristãos” no país e promover políticas de educação, adoção e combate a drogas junto a entidades religiosas.

A iniciativa é inédita e foi comemorada por lideranças religiosas que, frente às políticas de deportação, têm adotado majoritariamente o discurso de que se trata de algo necessário, mesmo que eventualmente afete os próprios fiéis.

“A comunidade [evangélica] está, sim, apreensiva, mas, em linhas gerais, você não vê ninguém revoltado com o governo porque ele resolveu pôr fim a uma série de situações que eram erradas”, diz o pastor Pedro Lino, que vive há nove anos nos Estados Unidos.

O pastor defende que muita gente “mal intencionada” entrou no país nos últimos anos — e acredita que governo Trump só vai querer ir atrás dos “criminosos”, algo repetido por grupos de apoiadores do republicano. O mesmo argumento é defendido pelo pastor Lopes.

Mesmo as declarações da Casa Branca de que todos os imigrantes em situação irregular estariam na mira — pois quem entra ilegalmente nos Estados Unidos já pode ser considerado um “criminoso” — não mudam o apoio das lideranças.

Na Flórida, o pastor Samuel Vitalino, líder da Igreja Esperança BPC, em Orlando, classifica como “infelicidade” o fato de algumas pessoas sem ficha criminal serem detidas em batidas do ICE.

É o que tem sido chamado de “dano colateral”, como o caso do brasileiro Lucas Amaral revelado pela BBC News Brasil. Cantor gospel na Igreja Batista da Lagoinha na região de Boston, Amaral passou mais de um mês preso após ser encontrado em uma blitz migratória em Massachusetts.

Segundo a defesa de Amaral, ele entrou no país com visto de turismo e estava irregular, mas não tinha nenhum histórico criminal e, agora, espera a conclusão do processo migratório — que pode resultar em deportação — em liberdade.

O ICE tem repetido que, entre os presos em operações nessa primeira fase, haverá detidos sem passagem na polícia ou ordem de deportação.

Os exemplos na Flórida ou em Massachusetts mostram um dilema entre os imigrantes evangélicos — muitos sem documentos — nos Estados Unidos.

Pesquisas eleitorais feitas antes do pleito de 2024 mostram que o apoio a Trump entre os evangélicos brancos passou dos 81%. Entre os evangélicos hispânicos, grupo que abarca grande parte da comunidade latina, 63% votaram em Trump.

Segundo Loyola, na associação, nenhuma igreja fez abertamente oposição ao republicano, embora nem todas o tenham apoiado intensamente.

“Algo interessante acontece nas mentes e corações [dos evangélicos]. Havia uma torcida para que os republicanos ganhassem a eleição, mesmo que tivessem certo medo e certo receio do que poderia acontecer”, resume o pastor Samuel Vitalino.

“O Trump fala sobre imigrantes. Mas isso faz parte do que o público dele americano republicano gosta de ouvir. Eu acho que a gente está lidando com política. Para o grupo de apoio de Trump, esse barulho é muito bem-vindo.”

Embora tenha apoiado Trump, o pastor Ramos diz não ter feito campanha por ele e ser contrário à visão da atual administração de que “imigrantes em situação irregular são criminosos”.

“Mas acho que ainda é um pouco cedo para dizer se Trump foi ou não a melhor escolha para o imigrante evangélico”, completa Ramos.

Em contato com grupos de evangélicos na Flórida, a pesquisadora Thaysy Lopes, professora de Ciências das Religiões da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), diz que a maioria dos fiéis, por sua vez, têm optado pelo silêncio sobre a política de imigração do atual governo.

Entre os que conversaram com ela, “há sempre uma negativa da possibilidade de as políticas de Trump atingi-los”, diz Lopes, autora de Religião e Migração Brasileira nos Estados Unidos.

Segundo dados do DHS, no primeiro mês sob Trump, o ICE realizou mais de 20 mil prisões. Em média, são 700 prisões por dia, mais que o dobro da taxa diária nos últimos anos, sob Joe Biden, mas abaixo da meta de ao menos mil prisões diárias que Trump desejaria.

Recentemente, o pastor André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha, com ampla atuação nos Estados Unidos, usou o culto para fazer uma defesa de Trump, dizendo que Biden e Barack Obama deportaram “infinitamente” mais pessoas e que o “melhor lugar para se estar” no momento é a igreja, sugerindo ter havido uma redução no número de fiéis presentes.

Enquanto dialogava com a plateia, Valadão acabou expondo a tensão que cerca o grupo. Ao pedir para que levantassem a mão aqueles ali que eram imigrantes, ele viu uma reação tímida dos presentes. “Gente, a pessoa está com medo até de levantar a mão”, disse Valadão, arrancando risos no culto.

Os números do ICE comprovam que, sob Biden e Obama, mais deportações aconteceram do que ao longo do primeiro mandato de Trump.

O pastor Leidmar Lopes repete o argumento. Há mais de três décadas no país, ele diz que já viu muitas ondas de expulsão de imigrantes, inclusive nos governos democratas, e que a novidade agora seria apenas “o auê sensacionalista feito por influencers”, nas redes sociais, utilizando-se, inclusive, de vídeos de operações antigos.

Já o pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que também tem atuação nos Estados Unidos, postou um vídeo nas redes sociais em que diz que “defende em parte” a política de Trump.

Malafaia diz que Trump está certo em deportar pessoas com ficha criminal, mas “deportar gente trabalhadora, aí não”.

“Nós não podemos aceitar a perseguição ao estrangeiro que é trabalhador num país cristão […] No passado, na escravidão americana, os evangélicos brancos se omitiram, ficaram calados, vão se omitir de novo na questão do imigrante?”, questionou o pastor, dizendo que vai pressionar líderes evangélicos americanos.

O limite para Trump

Apesar do apoio relativo às políticas de Trump, os líderes evangélicos têm dito que o cenário pode mudar, caso as operações anti-imigrantes se alonguem, aumentem em intensidade e passem a atingir mais e mais pessoas sem histórico criminal.

“Mas a sensação é que Trump não avançou ainda [para esse grupo]. Agora, se ultrapassarem os limites dos criminosos, eu acho que aí o governo vai perder bastante dentro da comunidade evangélica”, diz o pastor Pedro Lino.

Em uma das suas primeiras ordens executivas anti-imigrantes, Donald Trump ameaçou obrigar os imigrantes em situação irregular a “se registarem” no governo dos Estados Unidos ou enfrentariam acusações criminais, detenção e deportação, apesar de não estar claro ainda como isso ocorreria.

Essa é uma preocupação para Lino, caso o registro passe a ser utilizado para perseguir pessoas que estão há décadas no país pagando impostos e trabalhando.

“Esses imigrantes são honestos, já têm filhos, netos americanos. Alguns entraram aqui de uma forma que não convém.”

O pastor Ramos compartilha desta percepção. Ele tem recomendado aos fiéis que adotem uma postura conservadora em relação a gastos e exposições ao longo dos cem primeiros dias da nova gestão, quando se espera que ocorram buscas mais do ICE.

Nenhum dos pastores ouvidos pela reportagem acredita que Trump pretenda ou vá ser capaz de deportar mais de 10 milhões de pessoas, embora ele tenha prometido explicitamente fazê-lo.

Embora Trump nunca tenha feito qualquer declaração no sentido de regularizar os estrangeiros em situação irregular no país, circula entre as lideranças evangélicas a tese de que será isso que ele fará.

“Entendo que, até por querer restringir o direito de cidadania por nascimento, que o presidente Trump não queira dar cidadania a esses imigrantes, mas queira manter a relação de benefícios que a sociedade e a economia americanas têm com eles”, diz o pastor Ramos.

“Então, creio que vá ser criado um caminho para a legalização que talvez vá até o green card, mas que não passe daí. Isso não existe hoje, é um pensamento pessoal, algo que me parece lógico.”

Há décadas vivendo no país, ele testemunhou quando o republicano Ronald Reagan criou uma anistia que garantiu cidadania a cerca de 3 milhões de pessoas que até então viviam sem documentos no país. Para ele, os paralelos históricos apontam para o acerto de sua análise.

Atos contra imigrantes sem documentos foram prioridade nos primeiros dias do governo Trump

Julgamento cristão

Na avaliação da pesquisadora Thaysy Lopes, Trump de fato só perderia algum apoio da comunidade evangélica imigrante caso suas operações passem a afetar a igreja como instituição.

“Se houver problemas ao movimento econômico e à garantia da estabilidade econômica da empresa religiosa, aí Trump vai ter problemas”, avalia Lopes.

Nas pesquisas que fez com cristãos brasileiros na Flórida, ela concluiu que há uma forte “imigração religiosa” na região.

Uma vez nos Estados Unidos, muitos brasileiros não evangélicos acabam se convertendo ao protestantismo.

“Há uma força gigantesca da igreja protestante. E são igrejas muito alinhadas ao perfil de ‘excepcionalidade dos Estados Unidos’, de melhorar de vida, do sucesso”, explica Lopes.

Em alguns casos, diz Lopes, os recém-chegados ganham até um “vale-culto” ao frequentar a igreja, podendo trocá-lo por enxoval e outros produtos pessoais.

“É como um apoio familiar. É ali onde os imigrantes se sentem acolhidos e fortalecidos para o sonho americano”, explica a pesquisadora.

Mas nem tudo soa acolhedor.

Nas redes sociais de pastores e igrejas brasileiras, é muito frequente ver críticas de evangélicos sobre as pessoas que estão vivendo em situação irregular nos Estados Unidos.

O pastor Pedro Lino explica que “o imigrante que se legalizou se torna legalista”. Ou seja, passa a defender o cumprimento das leis sem nenhuma relativização.

“É isso que eu tenho combatido muito na igreja. Essa pessoa parece que esqueceu que ela também em um momento esteve em situação irregular. Se não houver misericórdia, a gente não pode viver o cristianismo de verdade”, diz Lino.

“Não vamos ter vergonha dos imigrantes, não vamos ter vergonha da nossa gente. Agora, tudo isso de uma maneira muito equilibrada, olhando sempre os dois lados”, completa o pastor, que diz que o cristão não deve ser de direita nem de esquerda, mas “submisso a Cristo”.

O pastor Paulo Tenório, ele mesmo um ex-imigrante sem documentos que se regularizou após quatro anos nos Estados Unidos, diz ser necessária uma sensibilidade aos imigrantes em situação irregular para que estas pessoas ainda não se sintam tão mal

“Sempre digo que o primeiro imigrante sem documentos foi Abraão, quando Deus falou: ‘Sai da terra para um lugar que vou te mostrar’. Deus não deu um green card para ele. Deus entregou a terra.”

Pastores brasileiros nos EUA se equilibram entre afinidade com Trump e o temor por fiéis: ‘Primeiro imigrante sem documentos foi Abraão’

No culto do último dia 16 de fevereiro, o pastor Paulo Tenório subiu ao púlpito da igreja pentecostal brasileira The Growing Church, em Massachusetts, nos Estados Unidos, e pregou sobre “o medo que leva ao esconderijo”.

“Quando os soldados de Israel viram que a situação era difícil, esconderam-se em cavernas e buracos”, lia o pastor, junto aos fiéis, um trecho da Bíblia, acrescentando: “É hora de declarar que o Deus que me trouxe aos Estados Unidos me levará até o final”.

O recado para os brasileiros presentes era a necessidade de “seguir firme” em tempos de medo.

“As medidas de [Donald] Trump trouxeram muito abalo para as pessoas. Uma coisa muito difícil está sendo vivida aqui,”, diz Tenório à BBC News Brasil, sobre o endurecimento da política de imigração do novo governo americano.

Massachussetts abriga junto com a Flórida a maioria das 2 milhões de pessoas que fazem parte da comunidade brasileira nos EUA.

Donald Trump se elegeu prometendo a maior deportação da história do país, que tem cerca de 12 milhões de imigrantes em situação irregular — há ao menos 230 mil brasileiros entre eles, de acordo com o Pew Research Center.

Trump fez campanha dizendo que a imigração para os Estados Unidos estava descontrolada, fazendo o país ser “invadido” por estrangeiros, que estariam “envenenando o sangue” do país, “tomando vagas de emprego” de americanos e pressionando serviços públicos.

Além de enviar o Exército para a fronteira, em seu primeiro dia na Casa Branca, em 20 de janeiro, a nova gestão Trump revogou a proteção contra operações migratórias em “locais sensíveis” nas comunidades e bairros ao redor do país.

“Os criminosos não poderão mais se esconder nas escolas e igrejas da América para evitar a prisão”, afirmou um porta-voz do Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), que atua para colocar em prática as políticas migratórias americanas.

De lá para cá, operações se espalharam pelos Estados Unidos, e o pânico se instalou nos grupos de WhatsApp de evangélicos brasileiros.

Além da tensão, a comunidade evangélica brasileira tenta se equilibrar entre as afinidades com Trump e a nova ênfase da política migratória.

Por um lado, boa parte dos imigrantes brasileiros evangélicos apoiaram a volta do republicano à Casa Branca — graças a bandeiras como o combate a políticas de gênero e aborto e o apoio ao empreendedorismo.

Por outro, uma parcela desta mesma comunidade é alvo da prioridade número um da gestão: prender e deportar o maior número possível de imigrantes sem documentos.

A situação já provocou mudanças concretas no cotidiano dos brasileiros.

A BBC News Brasil conversou com seis pastores na Flórida e em Massachusetts que relataram ter visto encolher a presença de fiéis em suas igrejas ou em instituições de colegas nas semanas que sucederam à chegada de Trump à Casa Branca, já que alguns evangélicos deixaram de se sentir seguros não só no trajeto aos templos, mas até mesmo durantes os cultos.

Agentes do ICE prendem homem em condomínio de Denver, Colorado

Ajuda legal e afinidade com Trump

Também liderada por brasileiros, a Igreja Presbiteriana CTK United aprovou um novo gasto fixo em seu orçamento mensal desde a volta de Trump à Presidência.

Os mais de 600 fiéis que congregam em templos de Massachusetts, Connecticut e Washington D.C. têm agora à disposição um advogado especializado em imigração para prestar assistência.

É a primeira vez que a instituição toma tal medida, embora tenha entre os frequentadores 30% de imigrantes sem documentos.

“As pessoas começaram a perguntar: se eu for surpreendido, meu filho vai ficar com quem? As minhas coisas ficam com quem?”, conta o pastor Pedro Lino, líder da CTK United.

Na igreja dirigida pelo pastor Júnior Ramos, a Waves of Revival, em Framingham, em Massachussets, ao menos 12 famílias já assinaram documentos que dão a Ramos a guarda de suas crianças em caso de prisão e deportação dos pais.

Com quase metade dos fiéis na condição de imigrantes em situação irregular, o pastor percebeu uma redução em cerca de 30% na frequência dos membros da igreja nas primeiras semanas do novo governo, movimento que agora está refluindo.

“Há um pânico, e é inevitável que isso afete as comunidades. O próprio governo atua para colocar medo para que as pessoas se autodeportem”, diz Ramos, citando um comercial de TV do DHS que estimula imigrantes em situação irregular a voltarem a seus países de origem para evitar serem detidos por agentes do governo.

Embora a Constituição dos Estados Unidos proteja atos religiosos, como cultos, de interrupção por agentes de segurança ou imigração, muitos pastores passaram a demonstrar dúvidas sobre como lidar com uma possível batida do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) nas igrejas.

Diante da demanda, a Associação de Pastores de Orlando chegou a fazer uma plenária com três escritórios de advocacia especializados em imigração para orientar os líderes das mais de cem igrejas associadas.

“Se o ICE bater numa igreja, qual o procedimento? Eles podem só chegar e entrar? Não. Tem todo um protocolo, tem que mostrar um mandado assinado por um juiz federal, com um alvo específico, não pode interromper o culto, nem fazer varredura dos fiéis”, diz o pastor André Loyola, presidente da associação.

Segundo ele, nenhuma batida do tipo aconteceu até agora em nenhum templo da região. Ainda assim, os líderes começaram a criar estratégias para potencialmente lidar com uma situação tensa.

“Se o agente chega, você precisa ter a calma de ser cooperativo, não estamos contra a lei”, diz Loyola.

“O que sugerimos é treinar dois ou três membros da comunidade que falem bem inglês e que possam entender o que os agentes precisam, para que se possa discretamente cooperar, sem criar um pânico no público.”

Pastor Pedro Lino, da Igreja Presbiteriana CTK United

Panfleto distribuído em Atlanta orienta imigrantes a lidarem com o ICE, serviço de imigração dos EUA

Apesar do atual desconforto com a ameaça aos fiéis, a maioria dos pastores ouvidos pela BBC News Brasil apoia e considera corretas as medidas do presidente americano.a

“As leis existem para ser cumpridas, e cada presidente tem sua agenda, mas não vai acontecer essa violação, de invadirem igrejas, a menos que a igreja esteja cheia só de bandidos”, afirma o pastor Leidmar Lopes, da Alliance Church, na Flórida.

Uma das principais referências brasileiras evangélicas no país, o pastor Lopes é um entusiasta de Trump e tem colaborado com o recém-criado Escritório da Fé, ligado à Casa Branca.

O Escritório da Fé tem a função de investigar e denunciar qualquer tipo de “discriminação contra cristãos” no país e promover políticas de educação, adoção e combate a drogas junto a entidades religiosas.

A iniciativa é inédita e foi comemorada por lideranças religiosas que, frente às políticas de deportação, têm adotado majoritariamente o discurso de que se trata de algo necessário, mesmo que eventualmente afete os próprios fiéis.

“A comunidade [evangélica] está, sim, apreensiva, mas, em linhas gerais, você não vê ninguém revoltado com o governo porque ele resolveu pôr fim a uma série de situações que eram erradas”, diz o pastor Pedro Lino, que vive há nove anos nos Estados Unidos.

O pastor defende que muita gente “mal intencionada” entrou no país nos últimos anos — e acredita que governo Trump só vai querer ir atrás dos “criminosos”, algo repetido por grupos de apoiadores do republicano. O mesmo argumento é defendido pelo pastor Lopes.

Mesmo as declarações da Casa Branca de que todos os imigrantes em situação irregular estariam na mira — pois quem entra ilegalmente nos Estados Unidos já pode ser considerado um “criminoso” — não mudam o apoio das lideranças.

Na Flórida, o pastor Samuel Vitalino, líder da Igreja Esperança BPC, em Orlando, classifica como “infelicidade” o fato de algumas pessoas sem ficha criminal serem detidas em batidas do ICE.

É o que tem sido chamado de “dano colateral”, como o caso do brasileiro Lucas Amaral revelado pela BBC News Brasil. Cantor gospel na Igreja Batista da Lagoinha na região de Boston, Amaral passou mais de um mês preso após ser encontrado em uma blitz migratória em Massachusetts.

Segundo a defesa de Amaral, ele entrou no país com visto de turismo e estava irregular, mas não tinha nenhum histórico criminal e, agora, espera a conclusão do processo migratório — que pode resultar em deportação — em liberdade.

O ICE tem repetido que, entre os presos em operações nessa primeira fase, haverá detidos sem passagem na polícia ou ordem de deportação.

Os exemplos na Flórida ou em Massachusetts mostram um dilema entre os imigrantes evangélicos — muitos sem documentos — nos Estados Unidos.

Pesquisas eleitorais feitas antes do pleito de 2024 mostram que o apoio a Trump entre os evangélicos brancos passou dos 81%. Entre os evangélicos hispânicos, grupo que abarca grande parte da comunidade latina, 63% votaram em Trump.

Segundo Loyola, na associação, nenhuma igreja fez abertamente oposição ao republicano, embora nem todas o tenham apoiado intensamente.

“Algo interessante acontece nas mentes e corações [dos evangélicos]. Havia uma torcida para que os republicanos ganhassem a eleição, mesmo que tivessem certo medo e certo receio do que poderia acontecer”, resume o pastor Samuel Vitalino.

“O Trump fala sobre imigrantes. Mas isso faz parte do que o público dele americano republicano gosta de ouvir. Eu acho que a gente está lidando com política. Para o grupo de apoio de Trump, esse barulho é muito bem-vindo.”

Embora tenha apoiado Trump, o pastor Ramos diz não ter feito campanha por ele e ser contrário à visão da atual administração de que “imigrantes em situação irregular são criminosos”.

“Mas acho que ainda é um pouco cedo para dizer se Trump foi ou não a melhor escolha para o imigrante evangélico”, completa Ramos.

Em contato com grupos de evangélicos na Flórida, a pesquisadora Thaysy Lopes, professora de Ciências das Religiões da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), diz que a maioria dos fiéis, por sua vez, têm optado pelo silêncio sobre a política de imigração do atual governo.

Entre os que conversaram com ela, “há sempre uma negativa da possibilidade de as políticas de Trump atingi-los”, diz Lopes, autora de Religião e Migração Brasileira nos Estados Unidos.

Segundo dados do DHS, no primeiro mês sob Trump, o ICE realizou mais de 20 mil prisões. Em média, são 700 prisões por dia, mais que o dobro da taxa diária nos últimos anos, sob Joe Biden, mas abaixo da meta de ao menos mil prisões diárias que Trump desejaria.

Recentemente, o pastor André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha, com ampla atuação nos Estados Unidos, usou o culto para fazer uma defesa de Trump, dizendo que Biden e Barack Obama deportaram “infinitamente” mais pessoas e que o “melhor lugar para se estar” no momento é a igreja, sugerindo ter havido uma redução no número de fiéis presentes.

Enquanto dialogava com a plateia, Valadão acabou expondo a tensão que cerca o grupo. Ao pedir para que levantassem a mão aqueles ali que eram imigrantes, ele viu uma reação tímida dos presentes. “Gente, a pessoa está com medo até de levantar a mão”, disse Valadão, arrancando risos no culto.

Os números do ICE comprovam que, sob Biden e Obama, mais deportações aconteceram do que ao longo do primeiro mandato de Trump.

O pastor Leidmar Lopes repete o argumento. Há mais de três décadas no país, ele diz que já viu muitas ondas de expulsão de imigrantes, inclusive nos governos democratas, e que a novidade agora seria apenas “o auê sensacionalista feito por influencers”, nas redes sociais, utilizando-se, inclusive, de vídeos de operações antigos.

Já o pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que também tem atuação nos Estados Unidos, postou um vídeo nas redes sociais em que diz que “defende em parte” a política de Trump.

Malafaia diz que Trump está certo em deportar pessoas com ficha criminal, mas “deportar gente trabalhadora, aí não”.

“Nós não podemos aceitar a perseguição ao estrangeiro que é trabalhador num país cristão […] No passado, na escravidão americana, os evangélicos brancos se omitiram, ficaram calados, vão se omitir de novo na questão do imigrante?”, questionou o pastor, dizendo que vai pressionar líderes evangélicos americanos.

O limite para Trump

Apesar do apoio relativo às políticas de Trump, os líderes evangélicos têm dito que o cenário pode mudar, caso as operações anti-imigrantes se alonguem, aumentem em intensidade e passem a atingir mais e mais pessoas sem histórico criminal.

“Mas a sensação é que Trump não avançou ainda [para esse grupo]. Agora, se ultrapassarem os limites dos criminosos, eu acho que aí o governo vai perder bastante dentro da comunidade evangélica”, diz o pastor Pedro Lino.

Em uma das suas primeiras ordens executivas anti-imigrantes, Donald Trump ameaçou obrigar os imigrantes em situação irregular a “se registarem” no governo dos Estados Unidos ou enfrentariam acusações criminais, detenção e deportação, apesar de não estar claro ainda como isso ocorreria.

Essa é uma preocupação para Lino, caso o registro passe a ser utilizado para perseguir pessoas que estão há décadas no país pagando impostos e trabalhando.

“Esses imigrantes são honestos, já têm filhos, netos americanos. Alguns entraram aqui de uma forma que não convém.”

O pastor Ramos compartilha desta percepção. Ele tem recomendado aos fiéis que adotem uma postura conservadora em relação a gastos e exposições ao longo dos cem primeiros dias da nova gestão, quando se espera que ocorram buscas mais do ICE.

Nenhum dos pastores ouvidos pela reportagem acredita que Trump pretenda ou vá ser capaz de deportar mais de 10 milhões de pessoas, embora ele tenha prometido explicitamente fazê-lo.

Embora Trump nunca tenha feito qualquer declaração no sentido de regularizar os estrangeiros em situação irregular no país, circula entre as lideranças evangélicas a tese de que será isso que ele fará.

“Entendo que, até por querer restringir o direito de cidadania por nascimento, que o presidente Trump não queira dar cidadania a esses imigrantes, mas queira manter a relação de benefícios que a sociedade e a economia americanas têm com eles”, diz o pastor Ramos.

“Então, creio que vá ser criado um caminho para a legalização que talvez vá até o green card, mas que não passe daí. Isso não existe hoje, é um pensamento pessoal, algo que me parece lógico.”

Há décadas vivendo no país, ele testemunhou quando o republicano Ronald Reagan criou uma anistia que garantiu cidadania a cerca de 3 milhões de pessoas que até então viviam sem documentos no país. Para ele, os paralelos históricos apontam para o acerto de sua análise.

Atos contra imigrantes sem documentos foram prioridade nos primeiros dias do governo Trump

Julgamento cristão

Na avaliação da pesquisadora Thaysy Lopes, Trump de fato só perderia algum apoio da comunidade evangélica imigrante caso suas operações passem a afetar a igreja como instituição.

“Se houver problemas ao movimento econômico e à garantia da estabilidade econômica da empresa religiosa, aí Trump vai ter problemas”, avalia Lopes.

Nas pesquisas que fez com cristãos brasileiros na Flórida, ela concluiu que há uma forte “imigração religiosa” na região.

Uma vez nos Estados Unidos, muitos brasileiros não evangélicos acabam se convertendo ao protestantismo.

“Há uma força gigantesca da igreja protestante. E são igrejas muito alinhadas ao perfil de ‘excepcionalidade dos Estados Unidos’, de melhorar de vida, do sucesso”, explica Lopes.

Em alguns casos, diz Lopes, os recém-chegados ganham até um “vale-culto” ao frequentar a igreja, podendo trocá-lo por enxoval e outros produtos pessoais.

“É como um apoio familiar. É ali onde os imigrantes se sentem acolhidos e fortalecidos para o sonho americano”, explica a pesquisadora.

Mas nem tudo soa acolhedor.

Nas redes sociais de pastores e igrejas brasileiras, é muito frequente ver críticas de evangélicos sobre as pessoas que estão vivendo em situação irregular nos Estados Unidos.

O pastor Pedro Lino explica que “o imigrante que se legalizou se torna legalista”. Ou seja, passa a defender o cumprimento das leis sem nenhuma relativização.

“É isso que eu tenho combatido muito na igreja. Essa pessoa parece que esqueceu que ela também em um momento esteve em situação irregular. Se não houver misericórdia, a gente não pode viver o cristianismo de verdade”, diz Lino.

“Não vamos ter vergonha dos imigrantes, não vamos ter vergonha da nossa gente. Agora, tudo isso de uma maneira muito equilibrada, olhando sempre os dois lados”, completa o pastor, que diz que o cristão não deve ser de direita nem de esquerda, mas “submisso a Cristo”.

O pastor Paulo Tenório, ele mesmo um ex-imigrante sem documentos que se regularizou após quatro anos nos Estados Unidos, diz ser necessária uma sensibilidade aos imigrantes em situação irregular para que estas pessoas ainda não se sintam tão mal

“Sempre digo que o primeiro imigrante sem documentos foi Abraão, quando Deus falou: ‘Sai da terra para um lugar que vou te mostrar’. Deus não deu um green card para ele. Deus entregou a terra.”

Pastores brasileiros nos EUA se equilibram entre afinidade com Trump e o temor por fiéis: ‘Primeiro imigrante sem documentos foi Abraão’

No culto do último dia 16 de fevereiro, o pastor Paulo Tenório subiu ao púlpito da igreja pentecostal brasileira The Growing Church, em Massachusetts, nos Estados Unidos, e pregou sobre “o medo que leva ao esconderijo”.

“Quando os soldados de Israel viram que a situação era difícil, esconderam-se em cavernas e buracos”, lia o pastor, junto aos fiéis, um trecho da Bíblia, acrescentando: “É hora de declarar que o Deus que me trouxe aos Estados Unidos me levará até o final”.

O recado para os brasileiros presentes era a necessidade de “seguir firme” em tempos de medo.

“As medidas de [Donald] Trump trouxeram muito abalo para as pessoas. Uma coisa muito difícil está sendo vivida aqui,”, diz Tenório à BBC News Brasil, sobre o endurecimento da política de imigração do novo governo americano.

Massachussetts abriga junto com a Flórida a maioria das 2 milhões de pessoas que fazem parte da comunidade brasileira nos EUA.

Donald Trump se elegeu prometendo a maior deportação da história do país, que tem cerca de 12 milhões de imigrantes em situação irregular — há ao menos 230 mil brasileiros entre eles, de acordo com o Pew Research Center.

Trump fez campanha dizendo que a imigração para os Estados Unidos estava descontrolada, fazendo o país ser “invadido” por estrangeiros, que estariam “envenenando o sangue” do país, “tomando vagas de emprego” de americanos e pressionando serviços públicos.

Além de enviar o Exército para a fronteira, em seu primeiro dia na Casa Branca, em 20 de janeiro, a nova gestão Trump revogou a proteção contra operações migratórias em “locais sensíveis” nas comunidades e bairros ao redor do país.

“Os criminosos não poderão mais se esconder nas escolas e igrejas da América para evitar a prisão”, afirmou um porta-voz do Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), que atua para colocar em prática as políticas migratórias americanas.

De lá para cá, operações se espalharam pelos Estados Unidos, e o pânico se instalou nos grupos de WhatsApp de evangélicos brasileiros.

Além da tensão, a comunidade evangélica brasileira tenta se equilibrar entre as afinidades com Trump e a nova ênfase da política migratória.

Por um lado, boa parte dos imigrantes brasileiros evangélicos apoiaram a volta do republicano à Casa Branca — graças a bandeiras como o combate a políticas de gênero e aborto e o apoio ao empreendedorismo.

Por outro, uma parcela desta mesma comunidade é alvo da prioridade número um da gestão: prender e deportar o maior número possível de imigrantes sem documentos.

A situação já provocou mudanças concretas no cotidiano dos brasileiros.

A BBC News Brasil conversou com seis pastores na Flórida e em Massachusetts que relataram ter visto encolher a presença de fiéis em suas igrejas ou em instituições de colegas nas semanas que sucederam à chegada de Trump à Casa Branca, já que alguns evangélicos deixaram de se sentir seguros não só no trajeto aos templos, mas até mesmo durantes os cultos.

Agentes do ICE prendem homem em condomínio de Denver, Colorado

Ajuda legal e afinidade com Trump

Também liderada por brasileiros, a Igreja Presbiteriana CTK United aprovou um novo gasto fixo em seu orçamento mensal desde a volta de Trump à Presidência.

Os mais de 600 fiéis que congregam em templos de Massachusetts, Connecticut e Washington D.C. têm agora à disposição um advogado especializado em imigração para prestar assistência.

É a primeira vez que a instituição toma tal medida, embora tenha entre os frequentadores 30% de imigrantes sem documentos.

“As pessoas começaram a perguntar: se eu for surpreendido, meu filho vai ficar com quem? As minhas coisas ficam com quem?”, conta o pastor Pedro Lino, líder da CTK United.

Na igreja dirigida pelo pastor Júnior Ramos, a Waves of Revival, em Framingham, em Massachussets, ao menos 12 famílias já assinaram documentos que dão a Ramos a guarda de suas crianças em caso de prisão e deportação dos pais.

Com quase metade dos fiéis na condição de imigrantes em situação irregular, o pastor percebeu uma redução em cerca de 30% na frequência dos membros da igreja nas primeiras semanas do novo governo, movimento que agora está refluindo.

“Há um pânico, e é inevitável que isso afete as comunidades. O próprio governo atua para colocar medo para que as pessoas se autodeportem”, diz Ramos, citando um comercial de TV do DHS que estimula imigrantes em situação irregular a voltarem a seus países de origem para evitar serem detidos por agentes do governo.

Embora a Constituição dos Estados Unidos proteja atos religiosos, como cultos, de interrupção por agentes de segurança ou imigração, muitos pastores passaram a demonstrar dúvidas sobre como lidar com uma possível batida do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) nas igrejas.

Diante da demanda, a Associação de Pastores de Orlando chegou a fazer uma plenária com três escritórios de advocacia especializados em imigração para orientar os líderes das mais de cem igrejas associadas.

“Se o ICE bater numa igreja, qual o procedimento? Eles podem só chegar e entrar? Não. Tem todo um protocolo, tem que mostrar um mandado assinado por um juiz federal, com um alvo específico, não pode interromper o culto, nem fazer varredura dos fiéis”, diz o pastor André Loyola, presidente da associação.

Segundo ele, nenhuma batida do tipo aconteceu até agora em nenhum templo da região. Ainda assim, os líderes começaram a criar estratégias para potencialmente lidar com uma situação tensa.

“Se o agente chega, você precisa ter a calma de ser cooperativo, não estamos contra a lei”, diz Loyola.

“O que sugerimos é treinar dois ou três membros da comunidade que falem bem inglês e que possam entender o que os agentes precisam, para que se possa discretamente cooperar, sem criar um pânico no público.”

Pastor Pedro Lino, da Igreja Presbiteriana CTK United

Panfleto distribuído em Atlanta orienta imigrantes a lidarem com o ICE, serviço de imigração dos EUA

Apesar do atual desconforto com a ameaça aos fiéis, a maioria dos pastores ouvidos pela BBC News Brasil apoia e considera corretas as medidas do presidente americano.a

“As leis existem para ser cumpridas, e cada presidente tem sua agenda, mas não vai acontecer essa violação, de invadirem igrejas, a menos que a igreja esteja cheia só de bandidos”, afirma o pastor Leidmar Lopes, da Alliance Church, na Flórida.

Uma das principais referências brasileiras evangélicas no país, o pastor Lopes é um entusiasta de Trump e tem colaborado com o recém-criado Escritório da Fé, ligado à Casa Branca.

O Escritório da Fé tem a função de investigar e denunciar qualquer tipo de “discriminação contra cristãos” no país e promover políticas de educação, adoção e combate a drogas junto a entidades religiosas.

A iniciativa é inédita e foi comemorada por lideranças religiosas que, frente às políticas de deportação, têm adotado majoritariamente o discurso de que se trata de algo necessário, mesmo que eventualmente afete os próprios fiéis.

“A comunidade [evangélica] está, sim, apreensiva, mas, em linhas gerais, você não vê ninguém revoltado com o governo porque ele resolveu pôr fim a uma série de situações que eram erradas”, diz o pastor Pedro Lino, que vive há nove anos nos Estados Unidos.

O pastor defende que muita gente “mal intencionada” entrou no país nos últimos anos — e acredita que governo Trump só vai querer ir atrás dos “criminosos”, algo repetido por grupos de apoiadores do republicano. O mesmo argumento é defendido pelo pastor Lopes.

Mesmo as declarações da Casa Branca de que todos os imigrantes em situação irregular estariam na mira — pois quem entra ilegalmente nos Estados Unidos já pode ser considerado um “criminoso” — não mudam o apoio das lideranças.

Na Flórida, o pastor Samuel Vitalino, líder da Igreja Esperança BPC, em Orlando, classifica como “infelicidade” o fato de algumas pessoas sem ficha criminal serem detidas em batidas do ICE.

É o que tem sido chamado de “dano colateral”, como o caso do brasileiro Lucas Amaral revelado pela BBC News Brasil. Cantor gospel na Igreja Batista da Lagoinha na região de Boston, Amaral passou mais de um mês preso após ser encontrado em uma blitz migratória em Massachusetts.

Segundo a defesa de Amaral, ele entrou no país com visto de turismo e estava irregular, mas não tinha nenhum histórico criminal e, agora, espera a conclusão do processo migratório — que pode resultar em deportação — em liberdade.

O ICE tem repetido que, entre os presos em operações nessa primeira fase, haverá detidos sem passagem na polícia ou ordem de deportação.

Os exemplos na Flórida ou em Massachusetts mostram um dilema entre os imigrantes evangélicos — muitos sem documentos — nos Estados Unidos.

Pesquisas eleitorais feitas antes do pleito de 2024 mostram que o apoio a Trump entre os evangélicos brancos passou dos 81%. Entre os evangélicos hispânicos, grupo que abarca grande parte da comunidade latina, 63% votaram em Trump.

Segundo Loyola, na associação, nenhuma igreja fez abertamente oposição ao republicano, embora nem todas o tenham apoiado intensamente.

“Algo interessante acontece nas mentes e corações [dos evangélicos]. Havia uma torcida para que os republicanos ganhassem a eleição, mesmo que tivessem certo medo e certo receio do que poderia acontecer”, resume o pastor Samuel Vitalino.

“O Trump fala sobre imigrantes. Mas isso faz parte do que o público dele americano republicano gosta de ouvir. Eu acho que a gente está lidando com política. Para o grupo de apoio de Trump, esse barulho é muito bem-vindo.”

Embora tenha apoiado Trump, o pastor Ramos diz não ter feito campanha por ele e ser contrário à visão da atual administração de que “imigrantes em situação irregular são criminosos”.

“Mas acho que ainda é um pouco cedo para dizer se Trump foi ou não a melhor escolha para o imigrante evangélico”, completa Ramos.

Em contato com grupos de evangélicos na Flórida, a pesquisadora Thaysy Lopes, professora de Ciências das Religiões da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), diz que a maioria dos fiéis, por sua vez, têm optado pelo silêncio sobre a política de imigração do atual governo.

Entre os que conversaram com ela, “há sempre uma negativa da possibilidade de as políticas de Trump atingi-los”, diz Lopes, autora de Religião e Migração Brasileira nos Estados Unidos.

Segundo dados do DHS, no primeiro mês sob Trump, o ICE realizou mais de 20 mil prisões. Em média, são 700 prisões por dia, mais que o dobro da taxa diária nos últimos anos, sob Joe Biden, mas abaixo da meta de ao menos mil prisões diárias que Trump desejaria.

Recentemente, o pastor André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha, com ampla atuação nos Estados Unidos, usou o culto para fazer uma defesa de Trump, dizendo que Biden e Barack Obama deportaram “infinitamente” mais pessoas e que o “melhor lugar para se estar” no momento é a igreja, sugerindo ter havido uma redução no número de fiéis presentes.

Enquanto dialogava com a plateia, Valadão acabou expondo a tensão que cerca o grupo. Ao pedir para que levantassem a mão aqueles ali que eram imigrantes, ele viu uma reação tímida dos presentes. “Gente, a pessoa está com medo até de levantar a mão”, disse Valadão, arrancando risos no culto.

Os números do ICE comprovam que, sob Biden e Obama, mais deportações aconteceram do que ao longo do primeiro mandato de Trump.

O pastor Leidmar Lopes repete o argumento. Há mais de três décadas no país, ele diz que já viu muitas ondas de expulsão de imigrantes, inclusive nos governos democratas, e que a novidade agora seria apenas “o auê sensacionalista feito por influencers”, nas redes sociais, utilizando-se, inclusive, de vídeos de operações antigos.

Já o pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que também tem atuação nos Estados Unidos, postou um vídeo nas redes sociais em que diz que “defende em parte” a política de Trump.

Malafaia diz que Trump está certo em deportar pessoas com ficha criminal, mas “deportar gente trabalhadora, aí não”.

“Nós não podemos aceitar a perseguição ao estrangeiro que é trabalhador num país cristão […] No passado, na escravidão americana, os evangélicos brancos se omitiram, ficaram calados, vão se omitir de novo na questão do imigrante?”, questionou o pastor, dizendo que vai pressionar líderes evangélicos americanos.

O limite para Trump

Apesar do apoio relativo às políticas de Trump, os líderes evangélicos têm dito que o cenário pode mudar, caso as operações anti-imigrantes se alonguem, aumentem em intensidade e passem a atingir mais e mais pessoas sem histórico criminal.

“Mas a sensação é que Trump não avançou ainda [para esse grupo]. Agora, se ultrapassarem os limites dos criminosos, eu acho que aí o governo vai perder bastante dentro da comunidade evangélica”, diz o pastor Pedro Lino.

Em uma das suas primeiras ordens executivas anti-imigrantes, Donald Trump ameaçou obrigar os imigrantes em situação irregular a “se registarem” no governo dos Estados Unidos ou enfrentariam acusações criminais, detenção e deportação, apesar de não estar claro ainda como isso ocorreria.

Essa é uma preocupação para Lino, caso o registro passe a ser utilizado para perseguir pessoas que estão há décadas no país pagando impostos e trabalhando.

“Esses imigrantes são honestos, já têm filhos, netos americanos. Alguns entraram aqui de uma forma que não convém.”

O pastor Ramos compartilha desta percepção. Ele tem recomendado aos fiéis que adotem uma postura conservadora em relação a gastos e exposições ao longo dos cem primeiros dias da nova gestão, quando se espera que ocorram buscas mais do ICE.

Nenhum dos pastores ouvidos pela reportagem acredita que Trump pretenda ou vá ser capaz de deportar mais de 10 milhões de pessoas, embora ele tenha prometido explicitamente fazê-lo.

Embora Trump nunca tenha feito qualquer declaração no sentido de regularizar os estrangeiros em situação irregular no país, circula entre as lideranças evangélicas a tese de que será isso que ele fará.

“Entendo que, até por querer restringir o direito de cidadania por nascimento, que o presidente Trump não queira dar cidadania a esses imigrantes, mas queira manter a relação de benefícios que a sociedade e a economia americanas têm com eles”, diz o pastor Ramos.

“Então, creio que vá ser criado um caminho para a legalização que talvez vá até o green card, mas que não passe daí. Isso não existe hoje, é um pensamento pessoal, algo que me parece lógico.”

Há décadas vivendo no país, ele testemunhou quando o republicano Ronald Reagan criou uma anistia que garantiu cidadania a cerca de 3 milhões de pessoas que até então viviam sem documentos no país. Para ele, os paralelos históricos apontam para o acerto de sua análise.

Atos contra imigrantes sem documentos foram prioridade nos primeiros dias do governo Trump

Julgamento cristão

Na avaliação da pesquisadora Thaysy Lopes, Trump de fato só perderia algum apoio da comunidade evangélica imigrante caso suas operações passem a afetar a igreja como instituição.

“Se houver problemas ao movimento econômico e à garantia da estabilidade econômica da empresa religiosa, aí Trump vai ter problemas”, avalia Lopes.

Nas pesquisas que fez com cristãos brasileiros na Flórida, ela concluiu que há uma forte “imigração religiosa” na região.

Uma vez nos Estados Unidos, muitos brasileiros não evangélicos acabam se convertendo ao protestantismo.

“Há uma força gigantesca da igreja protestante. E são igrejas muito alinhadas ao perfil de ‘excepcionalidade dos Estados Unidos’, de melhorar de vida, do sucesso”, explica Lopes.

Em alguns casos, diz Lopes, os recém-chegados ganham até um “vale-culto” ao frequentar a igreja, podendo trocá-lo por enxoval e outros produtos pessoais.

“É como um apoio familiar. É ali onde os imigrantes se sentem acolhidos e fortalecidos para o sonho americano”, explica a pesquisadora.

Mas nem tudo soa acolhedor.

Nas redes sociais de pastores e igrejas brasileiras, é muito frequente ver críticas de evangélicos sobre as pessoas que estão vivendo em situação irregular nos Estados Unidos.

O pastor Pedro Lino explica que “o imigrante que se legalizou se torna legalista”. Ou seja, passa a defender o cumprimento das leis sem nenhuma relativização.

“É isso que eu tenho combatido muito na igreja. Essa pessoa parece que esqueceu que ela também em um momento esteve em situação irregular. Se não houver misericórdia, a gente não pode viver o cristianismo de verdade”, diz Lino.

“Não vamos ter vergonha dos imigrantes, não vamos ter vergonha da nossa gente. Agora, tudo isso de uma maneira muito equilibrada, olhando sempre os dois lados”, completa o pastor, que diz que o cristão não deve ser de direita nem de esquerda, mas “submisso a Cristo”.

O pastor Paulo Tenório, ele mesmo um ex-imigrante sem documentos que se regularizou após quatro anos nos Estados Unidos, diz ser necessária uma sensibilidade aos imigrantes em situação irregular para que estas pessoas ainda não se sintam tão mal

“Sempre digo que o primeiro imigrante sem documentos foi Abraão, quando Deus falou: ‘Sai da terra para um lugar que vou te mostrar’. Deus não deu um green card para ele. Deus entregou a terra.”

Como Trump ajudou a aumentar popularidade da presidente de esquerda do México

Quando Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos em novembro, muitos alertaram que o México seria um dos países mais afetados. Alguns até disseram que seria “o mais afetado”.

A agenda econômica protecionista e linha dura do republicano em matéria de segurança e migração parecia uma espécie de condenação para um país que, nestas áreas e em muitas outras, depende dos interesses de Washington.

E embora o México continue vulnerável ao seu poderoso vizinho do norte, a presidente do país, Claudia Sheinbaum, conseguiu, pelo menos até agora, não só conter o impacto das políticas de Trump, como também transformá-las em oportunidades.

Na quinta-feira (6/3), os dois líderes chegaram a um novo acordo para suspender por um mês as tarifas dos EUA sobre as exportações mexicanas, prioridade de Sheinbaum, e trabalhar em conjunto no combate ao tráfico de fentanil e à migração ilegal, as grandes obsessões de Trump.

“A nossa relação tem sido muito boa, e estamos trabalhando duro, juntos, na fronteira (…) Obrigado à presidente Sheinbaum por seu trabalho árduo e cooperação”, escreveu Trump.

E Sheinbaum respondeu: “Tivemos um telefonema excelente e respeitoso, no qual concordamos que nosso trabalho e colaboração produziram resultados sem precedentes”.

As diferenças entre Trump e Sheinbaum são notáveis: ele é conservador, de masculinidade forte, crítico da ciência, imprevisível e disruptivo nas políticas e discursos; Ela, por outro lado, é feminista, moderada, científica e cuidadosa nos métodos, nas palavras e nas políticas públicas.

Eles são diferentes, antagônicos, mas as trocas de adjetivos positivos se repetem constantemente nas declarações de ambos: “Tenho um grande respeito por ela”; “é preciso destacar que o tratamento tem sido muito respeitoso”, disse Trump.

Como é que Sheinbaum, cuja popularidade subiu para sem precedentes 85% entre os mexicanos, conseguiu transformar o que até agora parecia uma tempestade perfeita em uma oportunidade?

Trump anunciou na quinta-feira que os EUA vão suspender temporariamente a maioria das tarifas que havia imposto ao México e ao Canadá

Da prefeitura à presidência

Muito se deve à sua estratégia de segurança, que, embora ela não declare, é distinta da do seu antecessor, Andrés Manuel López Obrador, fundador e líder simbólico do movimento político que compartilham.

AMLO, como é conhecido no México, teve uma política “humanista” em relação à crescente onda de violência no país: ele privilegiou o investimento social para evitar que os jovens ingressassem na criminalidade e reduziu a perseguição a grupos armados para evitar mais mortes.

Em um determinado momento, ele chamou a política de “abraços, não balas” para marcar a diferença em relação aos governos anteriores que, em parte apoiados pelos EUA, adotaram uma abordagem militar na chamada “guerra às drogas”, que levou a violações dos direitos humanos no México.

Sheinbaum, é claro, não critica nem se distancia desta linha. Em sua declaração na quinta-feira, ela insistiu que parte de seu objetivo é abordar as causas da violência.

Mas mesmo antes de se tornar presidente, ela já era conhecida por ter uma interpretação diferente da criminalidade. Quando foi prefeita da Cidade do México, entre 2018 e 2023, ela fortaleceu a polícia, criou redes de coordenação sofisticadas entre as autoridades, colocou câmeras em cada esquina e convenceu os cidadãos de que denunciar era primordial.

Com isso, a incidência de crimes foi reduzida em 58%, e os homicídios dolosos em 51%, segundo dados oficiais.

A ideia dela é replicar a experiência da prefeitura na presidência. Para isso, ela colocou Omar García Harfuch, ex-policial e filho de militares, à frente da Secretaria de Segurança, cargo que ele ocupava a nível municipal.

E tudo indica que, apesar da prevalência da violência, sua estratégia está rendendo frutos: os homicídios em todo o país caíram 16%, dezenas de toneladas de fentanil foram apreendidas, vários laboratórios do perigoso opioide foram destruídos, e grandes chefes do narcotráfico foram presos.

Na semana passada, o governo mexicano extraditou para os EUA 29 dos criminosos mais procurados do mundo, em uma “transferência” que causou polêmica, e mostrou o pragmatismo de Sheinbaum, no que foi interpretado como um aceno para Trump. Ao mesmo tempo, como disse a presidente, houve avanços no combate à criminalidade.

Sheinbaum afirmou, usando dados dos EUA, que as apreensões de fentanil em território americano caíram 40% graças às apreensões no México

‘O problema é crônico’

Mas a violência, é claro, continua sendo notícia diária no México. Os avanços e as estatísticas não dizem nada sobre o problema subjacente, afirma Ernesto López Portillo, coordenador do programa de Segurança Cidadã da Universidade Iberoamericana, no México, à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC.

“Sheinbaum modificou radicalmente a política de segurança do presidente anterior, apesar de se tratar do mesmo partido”, ele explica.

“AMLO aceitou, ou pelo menos tolerou, a crescente influência de organizações criminosas em todo o país (…) O México tem um problema crônico de impunidade, extorsão, desaparecimentos, e nada que a presidente faça pode resolver isso rapidamente.”

“A pressão de Trump faz com que o México tenha que apresentar resultados em termos de prisões e do fluxo de drogas, mas não sabemos se isso implica em fortalecer as instituições ou se é uma questão temporária de resultados”, acrescenta López Portillo.

Sheinbaum chegou ao poder três meses antes de Trump. Ou seja, antes das tarifas, veio a mudança na política de segurança mexicana. Só que agora Sheinbaum dobrou a aposta.

“Fazemos este trabalho para a segurança do México”, declarou a presidente na quinta-feira. “É parte da nossa estratégia de segurança e da nossa cooperação com os EUA.”

É como se Sheinbaum estivesse tentando matar dois coelhos com uma cajadada só.

“A política de segurança é fortalecida e acelerada pela pressão dos EUA, mas não é exclusivamente uma reação”, afirma Guadalupe González, especialista em relações internacionais do Colégio de México (Colmex), instituição de ensino superior mexicana voltada ao estudo das ciências humanas e sociais.

“E com relação à economia é parecido”, ela acrescenta. “A estratégia é convencer os EUA de que, para recuperar sua competitividade e fortalecer sua própria indústria, eles precisam do México.”

Talvez, então, sejam três coelhos com uma cajadada só, no caso de Sheinbaum.

Na última rodada de negociações, Sheinbaum se comprometeu com Trump a militarizar a fronteira

‘Nós também’

Em janeiro, quando Trump estava prestes a tomar posse, a presidente apresentou, acompanhada pelo setor privado, um plano de desenvolvimento econômico para expandir o aparato produtivo do país, atrair investimentos, apoiar empresas de médio porte, reduzir a burocracia para o empreendedorismo e fortalecer o turismo.

Um plano de desenvolvimento econômico que, em outras palavras, busca depender menos dos EUA.

Ou, como disse Sheinbaum na quinta-feira: “Vamos fortalecer nossa soberania energética. Temos que fortalecer nossa autossuficiência (…) Também temos que rever nossos tratados”.

A renegociação do T-MEC, o acordo crucial de livre comércio entre o México, o Canadá e os Estados Unidos, está prevista para 2026. O que para Trump parece ser a desculpa ideal para o país maior subjugar os dois menores, pode se tornar, segundo a presidente, mais uma oportunidade para o México.

García Harfuch está no comando há meses no Estado de Sinaloa, uma região quase em guerra civil entre facções do Cartel de Sinaloa, onde dezenas de pessoas foram presas e toneladas de drogas apreendidas

‘Vamos comemorar’

Em suas declarações, Sheinbaum insiste que “cooperação não é subordinação”, e que “o tratamento é entre iguais”.

Na terça-feira, quando Trump impôs as tarifas, a presidente disse que anunciaria as medidas de resposta em um grande evento na Zócalo, a emblemática praça no centro da capital.

As tarifas agora foram suspensas, mas o evento continua de pé:

“Vamos fazer um festival, vamos comemorar a conquista deste acordo, e vamos convidar grupos musicais para comemorar”, anunciou a presidente com um sorriso na quinta-feira.

“Venham, conterrâneos, venham que nós abraçamos vocês, vocês são o melhor que nosso país tem”, ela acrescentou, se referindo aos camponeses que já haviam se programado para participar do evento na capital.

Como se não bastasse ter o apoio de 8 em cada 10 mexicanos, Sheinbaum vai dobrar a aposta nacionalista. Talvez, então, sejam quatro coelhos que ela está tentando matar com uma cajadada só diante da ameaça de Trump.

Como Trump ajudou a aumentar popularidade da presidente de esquerda do México

Quando Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos em novembro, muitos alertaram que o México seria um dos países mais afetados. Alguns até disseram que seria “o mais afetado”.

A agenda econômica protecionista e linha dura do republicano em matéria de segurança e migração parecia uma espécie de condenação para um país que, nestas áreas e em muitas outras, depende dos interesses de Washington.

E embora o México continue vulnerável ao seu poderoso vizinho do norte, a presidente do país, Claudia Sheinbaum, conseguiu, pelo menos até agora, não só conter o impacto das políticas de Trump, como também transformá-las em oportunidades.

Na quinta-feira (6/3), os dois líderes chegaram a um novo acordo para suspender por um mês as tarifas dos EUA sobre as exportações mexicanas, prioridade de Sheinbaum, e trabalhar em conjunto no combate ao tráfico de fentanil e à migração ilegal, as grandes obsessões de Trump.

“A nossa relação tem sido muito boa, e estamos trabalhando duro, juntos, na fronteira (…) Obrigado à presidente Sheinbaum por seu trabalho árduo e cooperação”, escreveu Trump.

E Sheinbaum respondeu: “Tivemos um telefonema excelente e respeitoso, no qual concordamos que nosso trabalho e colaboração produziram resultados sem precedentes”.

As diferenças entre Trump e Sheinbaum são notáveis: ele é conservador, de masculinidade forte, crítico da ciência, imprevisível e disruptivo nas políticas e discursos; Ela, por outro lado, é feminista, moderada, científica e cuidadosa nos métodos, nas palavras e nas políticas públicas.

Eles são diferentes, antagônicos, mas as trocas de adjetivos positivos se repetem constantemente nas declarações de ambos: “Tenho um grande respeito por ela”; “é preciso destacar que o tratamento tem sido muito respeitoso”, disse Trump.

Como é que Sheinbaum, cuja popularidade subiu para sem precedentes 85% entre os mexicanos, conseguiu transformar o que até agora parecia uma tempestade perfeita em uma oportunidade?

Trump anunciou na quinta-feira que os EUA vão suspender temporariamente a maioria das tarifas que havia imposto ao México e ao Canadá

Da prefeitura à presidência

Muito se deve à sua estratégia de segurança, que, embora ela não declare, é distinta da do seu antecessor, Andrés Manuel López Obrador, fundador e líder simbólico do movimento político que compartilham.

AMLO, como é conhecido no México, teve uma política “humanista” em relação à crescente onda de violência no país: ele privilegiou o investimento social para evitar que os jovens ingressassem na criminalidade e reduziu a perseguição a grupos armados para evitar mais mortes.

Em um determinado momento, ele chamou a política de “abraços, não balas” para marcar a diferença em relação aos governos anteriores que, em parte apoiados pelos EUA, adotaram uma abordagem militar na chamada “guerra às drogas”, que levou a violações dos direitos humanos no México.

Sheinbaum, é claro, não critica nem se distancia desta linha. Em sua declaração na quinta-feira, ela insistiu que parte de seu objetivo é abordar as causas da violência.

Mas mesmo antes de se tornar presidente, ela já era conhecida por ter uma interpretação diferente da criminalidade. Quando foi prefeita da Cidade do México, entre 2018 e 2023, ela fortaleceu a polícia, criou redes de coordenação sofisticadas entre as autoridades, colocou câmeras em cada esquina e convenceu os cidadãos de que denunciar era primordial.

Com isso, a incidência de crimes foi reduzida em 58%, e os homicídios dolosos em 51%, segundo dados oficiais.

A ideia dela é replicar a experiência da prefeitura na presidência. Para isso, ela colocou Omar García Harfuch, ex-policial e filho de militares, à frente da Secretaria de Segurança, cargo que ele ocupava a nível municipal.

E tudo indica que, apesar da prevalência da violência, sua estratégia está rendendo frutos: os homicídios em todo o país caíram 16%, dezenas de toneladas de fentanil foram apreendidas, vários laboratórios do perigoso opioide foram destruídos, e grandes chefes do narcotráfico foram presos.

Na semana passada, o governo mexicano extraditou para os EUA 29 dos criminosos mais procurados do mundo, em uma “transferência” que causou polêmica, e mostrou o pragmatismo de Sheinbaum, no que foi interpretado como um aceno para Trump. Ao mesmo tempo, como disse a presidente, houve avanços no combate à criminalidade.

Sheinbaum afirmou, usando dados dos EUA, que as apreensões de fentanil em território americano caíram 40% graças às apreensões no México

‘O problema é crônico’

Mas a violência, é claro, continua sendo notícia diária no México. Os avanços e as estatísticas não dizem nada sobre o problema subjacente, afirma Ernesto López Portillo, coordenador do programa de Segurança Cidadã da Universidade Iberoamericana, no México, à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC.

“Sheinbaum modificou radicalmente a política de segurança do presidente anterior, apesar de se tratar do mesmo partido”, ele explica.

“AMLO aceitou, ou pelo menos tolerou, a crescente influência de organizações criminosas em todo o país (…) O México tem um problema crônico de impunidade, extorsão, desaparecimentos, e nada que a presidente faça pode resolver isso rapidamente.”

“A pressão de Trump faz com que o México tenha que apresentar resultados em termos de prisões e do fluxo de drogas, mas não sabemos se isso implica em fortalecer as instituições ou se é uma questão temporária de resultados”, acrescenta López Portillo.

Sheinbaum chegou ao poder três meses antes de Trump. Ou seja, antes das tarifas, veio a mudança na política de segurança mexicana. Só que agora Sheinbaum dobrou a aposta.

“Fazemos este trabalho para a segurança do México”, declarou a presidente na quinta-feira. “É parte da nossa estratégia de segurança e da nossa cooperação com os EUA.”

É como se Sheinbaum estivesse tentando matar dois coelhos com uma cajadada só.

“A política de segurança é fortalecida e acelerada pela pressão dos EUA, mas não é exclusivamente uma reação”, afirma Guadalupe González, especialista em relações internacionais do Colégio de México (Colmex), instituição de ensino superior mexicana voltada ao estudo das ciências humanas e sociais.

“E com relação à economia é parecido”, ela acrescenta. “A estratégia é convencer os EUA de que, para recuperar sua competitividade e fortalecer sua própria indústria, eles precisam do México.”

Talvez, então, sejam três coelhos com uma cajadada só, no caso de Sheinbaum.

Na última rodada de negociações, Sheinbaum se comprometeu com Trump a militarizar a fronteira

‘Nós também’

Em janeiro, quando Trump estava prestes a tomar posse, a presidente apresentou, acompanhada pelo setor privado, um plano de desenvolvimento econômico para expandir o aparato produtivo do país, atrair investimentos, apoiar empresas de médio porte, reduzir a burocracia para o empreendedorismo e fortalecer o turismo.

Um plano de desenvolvimento econômico que, em outras palavras, busca depender menos dos EUA.

Ou, como disse Sheinbaum na quinta-feira: “Vamos fortalecer nossa soberania energética. Temos que fortalecer nossa autossuficiência (…) Também temos que rever nossos tratados”.

A renegociação do T-MEC, o acordo crucial de livre comércio entre o México, o Canadá e os Estados Unidos, está prevista para 2026. O que para Trump parece ser a desculpa ideal para o país maior subjugar os dois menores, pode se tornar, segundo a presidente, mais uma oportunidade para o México.

García Harfuch está no comando há meses no Estado de Sinaloa, uma região quase em guerra civil entre facções do Cartel de Sinaloa, onde dezenas de pessoas foram presas e toneladas de drogas apreendidas

‘Vamos comemorar’

Em suas declarações, Sheinbaum insiste que “cooperação não é subordinação”, e que “o tratamento é entre iguais”.

Na terça-feira, quando Trump impôs as tarifas, a presidente disse que anunciaria as medidas de resposta em um grande evento na Zócalo, a emblemática praça no centro da capital.

As tarifas agora foram suspensas, mas o evento continua de pé:

“Vamos fazer um festival, vamos comemorar a conquista deste acordo, e vamos convidar grupos musicais para comemorar”, anunciou a presidente com um sorriso na quinta-feira.

“Venham, conterrâneos, venham que nós abraçamos vocês, vocês são o melhor que nosso país tem”, ela acrescentou, se referindo aos camponeses que já haviam se programado para participar do evento na capital.

Como se não bastasse ter o apoio de 8 em cada 10 mexicanos, Sheinbaum vai dobrar a aposta nacionalista. Talvez, então, sejam quatro coelhos que ela está tentando matar com uma cajadada só diante da ameaça de Trump.

Empreendedorismo nos EUA: negócios brasileiros ganham força no mercado americano

Empresas brasileiras estão conquistando cada vez mais espaço nos Estados Unidos, impulsionadas por estratégias de expansão bem estruturadas e por um mercado ávido por inovações. Entre os nomes que se destacam nesse movimento está Douglas Bubna, um empresário de 42 anos que mora há seis nos EUA e tem apostado na internacionalização de marcas nacionais.

Bubna, que iniciou sua trajetória como franqueado da rede de piscinas iGUi em Orlando, enxergou na implantação de empresas brasileiras em solo americano um nicho promissor. Ele fundou a Head Oversea, uma incubadora de negócios que atua na captação de recursos, criação de valor e desenvolvimento de mercado para empresas de diversos setores. Hoje, a incubadora já acumula sucessos na introdução de marcas brasileiras nos EUA.

Um dos cases de maior destaque na Head Oversea é a Drakkar Boats, uma empresa gaúcha especializada na produção artesanal de barcos de luxo. A decisão de expandir para os EUA foi estratégica: o país movimenta cerca de US$ 22 bilhões apenas no setor de iates e responde por 35% do mercado náutico global. A Flórida, em particular, abriga uma das maiores frotas de embarcações de lazer do mundo, tornando-se um polo natural para o crescimento da marca.

Desde o início da internacionalização, em 2023, a Drakkar Boats já comercializou mais de 30 embarcações e projeta um faturamento superior a US$ 3 milhões em 2024.

Outro setor que tem se mostrado promissor para marcas brasileiras nos EUA é o da estética e beleza, especialmente a depilação ao estilo brasileiro. A técnica, que remove todos os pelos da região íntima, se tornou uma tendência global e foi até mencionada na série Sex and the City, em que uma das personagens se impressiona com o resultado da depilação feita por uma especialista brasileira.

Atento a essa demanda, um grande grupo brasileiro de depilação procurou Bubna para internacionalizar a marca. Em apenas um ano, a rede já conta com três unidades nos EUA e projeta a abertura de mais três até o fim de 2025, com um faturamento estimado de US$ 1 milhão.

Bubna acredita que há um enorme potencial para empresas brasileiras crescerem nos Estados Unidos, principalmente em setores nos quais o Brasil se destaca, como beleza, gastronomia, náutica e tecnologia. “Os EUA têm necessidade de algumas especializações que o Brasil tem a oferecer. Descobrir esses tesouros e fazê-los fluir para cá é uma tarefa prazerosa e rentável”, afirma o empresário.

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“Capitalizamos empresas, distribuímos serviços necessários e ajudamos as marcas a realizarem o sonho de expandir para fora do Brasil. Junto com tantos empresários, realizo meus propósitos pessoais e me comprometo a agregar valor a essas instituições”, conclui.