Relatórios de sustentabilidade na mira de investidores

miraO novo relato corporativo: integrando informações financeiras e não financeiras para gerar valor.

A função de elaboração de relatórios é uma atividade intrínseca ao capitalismo. Os participantes do mercado precisam de informação para suas tomadas de decisão. Mas as críticas à forma como os relatórios financeiros têm desempenhado sua função de informação tem se tornado cada vez mais frequentes e se intensificaram nos últimos 20 anos.

Com a economia cada vez mais baseada em conhecimento e informação, e menos em máquinas e propriedades físicas, muitos dos ativos de uma empresa hoje não são capturados no balanço. A crescente base de ativos intangíveis que não são medidos no balanço é citada como uma das falhas dos relatórios financeiros em exercer sua função de informação. Isso pode ser verificado pela análise do valor de mercado das empresas que compõem o Índice S&P 500 nos últimos 35 anos: seu valor de mercado desviou-se muito do seu valor contábil, e isso está diretamente ligado aos valores intangíveis.

Mas a questão dos intangíveis começou a ser discutida bem antes disso. Acredita-se que o termo Responsabilidade Social Empresarial (RSE), ou Corporate Social Responsibility (CSR) foi cunhado pela primeira vez em 1953, com a publicação do livro “Social Responsibilities of the Businessman“ de Howard R. Bowen, que fez a pergunta “Quais responsabilidades perante a sociedade os empresários devem assumir, de maneira razoável?”. Mais de 60 anos depois, será que já temos uma resposta ampla e correta para essa pergunta? Os relatórios não financeiros ou de dados ESG (Environmental, Social & Governance, ou Ambiental, Social e Governança) podem ser considerados uma dessas respostas.

Os primeiros exercícios de relatórios não financeiros – os chamados Balanços Sociais – se deram na década de 60, nos EUA e na Europa. A época foi marcada pela guerra do Vietnã, que incitou o repúdio da população e deu início a um movimento de boicote a aquisição de produtos e ações de algumas empresas diretamente ligadas ao conflito. Naquele momento, a sociedade passou a exigir uma nova postura ética das empresas e, como resultado, diversas delas passaram a prestar contas de suas ações e objetivos sociais.

Ao mesmo tempo, a preocupação com o meio ambiente também entrava na agenda das nações, justamente após um período de expansão e estabelecimento de grandes corporações. Os Estados Unidos foram o primeiro país a perceber a necessidade e urgência da intervenção do poder público sobre as questões ambientais. Em 1969 formalizaram o instrumento de Avaliação dos Impactos Ambientais (AIA) e lançaram a National Environmental Policy Act (NEPA). Em 1970 estabeleceram a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, encarregada de proteger a saúde humana e o meio ambiente: ar, água e terra.

Ao longo dos anos 70 e 80, a discussão acadêmica do conceito de RSE cresceu, mas a primeira empresa reconhecida por realmente publicar um relatório social foi a Ben & Jerry’s, em 1989, e a primeira grande corporação foi a Shell, quase dez anos depois, em 1998.

Outras iniciativas relevantes a serem citadas como referência são o Pacto Global da ONU (UN Global Compact) e o CDP – Carbon Disclosure Project, ambos lançados no ano 2000, voltados ao envolvimento do mundo corporativo nas questões relevantes de responsabilidade corporativa e direitos humanos e da emissão de gases de efeito estufa.

Atualmente, já são milhares de empresas ao redor do mundo, sejam elas públicas, privadas, de todos os tamanhos, que publicam relatórios de sustentabilidade. Enquanto os relatórios financeiros são moldados por normas de contabilidade e auditoria, os relatórios de sustentabilidade seguem normas voluntárias, como as criadas pela GRI – Global Reporting Initiative e mais recentemente, pelo IIRC – International Integrated Reporting Council, responsável pelo Modelo do Relato Integrado.

Existe uma visão de que os relatórios financeiros são voltados para investidores, enquanto os relatórios de sustentabilidade são voltados para todos os stakeholders, incluindo funcionários, clientes, fornecedores, mídia, comunidades locais e ONGs. Mas essa parece estar a caminho de deixar de ser uma verdade absoluta.

Tem se notado recentemente um número crescente de grandes corporações e investidores interessados em informações sobre sustentabilidade na forma de dados ESG.  Este interesse é impulsionado por alguns investidores por razões éticas ou morais; para outros, por razões econômicas, uma vez que estes dados podem aprimorar o perfil de risco-retorno de uma carteira. No caso das corporações, elas estão incluindo sustentabilidade em sua cadeia de valor e exigindo esse posicionamento de seus fornecedores – muitas vezes por pressão de seus investidores.

Seja qual for a razão, o investidor está interessado em dados, e fato é que os balanços, na forma como são divulgados hoje, não fornecem informações sobre o desempenho ambiental, social e de governança.

Embora os relatórios de sustentabilidade visem preencher essa lacuna, os críticos destacam que eles o fazem de forma incompleta. Os dados que estão incluídos em um relatório de sustentabilidade freqüentemente não são auditados e, mesmo quando o são, o processo de asseguração ainda não se equipara ao de uma auditoria. Uma das principais razões para isso é que não existem normas de medição e relatórios rigorosos semelhantes aos existentes para relatórios financeiros. Organizações como a GRI já estão trabalhando para mudar isso, assim como as grandes empresas de auditoria. Mas ainda há resistência por parte das empresas em contratar esse serviço.

O maior questionamento dos investidores tem sido de que a informação contida nos relatórios de sustentabilidade raramente é apresentada no contexto do modelo de negócios e da estratégia de uma organização. Isso torna difícil a compreensão de como o desempenho ESG relaciona-se com o desempenho financeiro e como as questões de sustentabilidade afetam o processo de criação de valor de uma organização.

Felizmente os investidores já compreendem que esses dados precisam ser monitorados e que existe uma relação risco-retorno. A tendência de maior pressão de investidores para que as empresas divulguem essas informações de maneira clara, transparente e totalmente integrada ao modelo de negócios só tende a crescer. Fundos de pensão de todo o mundo já têm incluído o assunto em seus manuais de Governança Corporativa e têm incentivado fortemente suas investidas a se posicionarem com a publicação de relatórios de sustentabilidade. Podemos citar TIAA-CREF nos Estados Unidos, e PREVI, no Brasil, como exemplos nessa linha.

Além disso, o Banco Central instituiu no ano passado, por meio da Resolução 4327, a Política de Responsabilidade Socioambiental (PRSA) que deverá ser observada por todos os bancos brasileiros, que responderão solidariamente e judicialmente no caso de um incidente socioambiental nos projetos que financiarem. Isso vai exigir um novo posicionamento a respeito do risco socioambiental por todas as empresas que buscarem um empréstimo em bancos.

Nessa linha, o movimento do Relato Integrado – RI – tem crescido globalmente, e nos parece uma tendência que precisa ser acompanhada com bastante cuidado pelas organizações. A visão de longo prazo das organizações participantes do IIRC é um mundo em que o pensamento integrado (integrated thinking) é incorporado dentro da prática das empresas dos setores público e privado, facilitado pelo Relato Integrado como orientador de relatórios corporativos. O objetivo é alcançar o ciclo de pensar, gerir e relatar de maneira integrada, resultando na alocação de capital eficiente e produtiva e, assim, agindo para a estabilidade financeira e a sustentabilidade do negócio.

O RI é necessário para empresas e investidores. As companhias precisam de um ambiente de elaboração de relatórios que seja propício para a compreensão e articulação de sua estratégia, o que ajuda a impulsionar o desempenho internamente e atrair capital financeiro para investimentos. Os investidores precisam entender como a estratégia que está sendo perseguida cria valor ao longo do tempo. Na visão do IIRC, essa é a evolução do processo de elaboração de relatórios corporativos.

No modelo do RI divulgado globalmente em dezembro de 2013, a empresa deve organizar seu modelo de negócios baseando-se nos Seis Capitais (Financeiro, Manufaturado, Intelectual, Humano, Social & de Relacionamento, Natural). A motivação é uma melhor compreensão do modelo de negócios da companhia e dos capitais relevantes – como eles são transformados ao longo do processo de operação da companhia, tendo como características básicas a concisão e a conectividade.

Países como África do Sul e Austrália já estão tornando o RI obrigatório, dentro do modelo Relate ou Explique. No Reino Unido, berço do IIRC, essa é uma forte tendência. O Japão é outro importante signatário – o Relato Integrado faz parte do Abenomics (nova estratégia de política monetária, fiscal e de crescimento econômico para incentivar o crescimento do país). Mais de 100 empresas no mundo todo fizeram parte do Projeto Piloto, que se encerrou agora em setembro de 2014 – 12 delas brasileiras. O próximo passo é o início do IR Business Network. Se sua empresa quer ser pioneira na integração de seus relatórios financeiros e não financeiros, sugerimos que participe dessa importante rede de negócios global.

Cada vez mais, os líderes empresariais estão compreendendo que o sucesso e a rentabilidade sustentável dos negócios são fortemente dependentes da manutenção de uma boa reputação corporativa, o que inclui a compreensão dos riscos de reputação estratégica, incluindo riscos ESG. Para estarem bem posicionadas nessa área, as empresas devem adotar medidas robustas para construir resiliência organizacional, tanto em suas próprias operações como em sua cadeia de negócios.

Fonte: Consumidor Consciente


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